ÍNDICE:
OS GATOS | DOMINGOS COM SOL | ECLIPSE
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OS GATOS
O ruído dos passos no fim do corredor trouxe a visão do lustro sempre impecável de seus sapatos. Era só esperar que abrisse a porta e poderia ter certeza de que estava em casa mais uma vez.
No relógio, os ponteiros se encontravam próximos ao topo. Em outros tempos, aquilo significaria não menos de uma hora de ininterruptas repreensões. Hoje, esperava que sentasse na cama e lhe sorrisse ao menos por um instante. Não exigiria mais que isso e, entretanto, temeu se frustar mais uma vez.
A porta abriu precedida pelo rangido secular. Sobre a cama, o aspecto era de que ninguém houvesse dormido ali, mas que se tivesse instalado um processo de putrefação. Sentou-se próximo à cabeceira e pegou com uma das mãos o travesseiro encharcado de suor. Ouviu o chuveiro derramar água e levantou para juntar do chão as roupas esparramadas. Amontôou-as em um canto do quarto e se dirigiu à janela. Os telhados das casas vizinhas o fizeram lembrar de quando o filho havia quebrado a perna tentando escalar um muro em busca de seu gato de estimação e de como chorara, dias depois, por perceber que o animal jamais voltaria. A mãe lhe dera outros animais mas ele nunca se consolara. Lembrava de ter dito que não se pode ser fiel com os gatos, gatos não têm donos, por mais que se dedique a eles. Se lembrasse bem, teria sido por essas palavras que conseguira esquecer o gato.
A água caia sobre seus ombros e se contorcia para receber o jato em todo o corpo. O escovão pendurado em uma das paredes era o mesmo de sua infância. Algumas vezes, com aquele mesmo objeto, havia recebido surras de sua mãe, mas em seu corpo não existiam mais aquelas marcas. O mofo no teto do banheiro crescera bastante e desfizera o rosto do palhaço que sempre o vigiava durante o banho. Não conseguia mais distinguir nada ali. Também não podia sustentar a cabeça para o alto por muito tempo, suas forças sumiam. Não ouvia o som da água escorrer pelo chão mas ouvia ruídos no quarto. Lembrou-se que o pai o aguardava e que estava sozinho, porém tinha a nítida impressão de ouvir a voz da mãe em sussurros incompreensíveis. Deitou-se na banheira de louça branca e resolveu não sair dali enquanto ela não o viesse buscar.
Aquele banho já estava bastante demorado e não se animava a bater na porta. Se fizesse isto, talvez piorasse a situação. Tentou se distrair com outras lembranças da infância mas não conseguiu. Somente conseguia repetir em pensamento a indagação de sempre: por que tanto tempo sem notícias?, por que o evitava deste modo desde que a mãe morrera?, o quê havia feito de tão cruel que não podia perceber? Já havia esperado cinco anos e esperar que aquele banho terminasse parecia-lhe durar mais que a eternidade.
A mãe lhe dizia do outro lado da porta – Vamos menino!, o concerto é daqui a dez minutos! -. Não queria ir, não gostava da voz do pai, muito menos se precisasse lhe aplaudir. A mãe abre a porta e o vê deitado na banheira com o pato de borracha nadando sobre o peito. Não olha para ela e ela olha para ele. Depois deixa seu corpo ardido e vai embora. Ao se ver sozinho, deixa a água correr pelo ralo e se veste correndo, a oportunidade é boa, a mãe nunca larga seu pé. Puxa de cima do armário a mala de viagem que se espatifa no piso. A madeira não range aos seus passos rápidos. Chega na escada e vê toda a família reunida. Estanca os passos e examina uma a uma as fisionomias. O pai não está ali. Procura-o no quarto deles e lá está sua mãe, como uma pedra de gelo. O pai está chorando em pé. Jamais veria novamente o pai chorar.
Sua paciência se esgotou e começou a bater na porta do banheiro. Duas vezes e nada. Mais duas vezes e o chamou pelo nome, temendo estar enganado – An… Antônio…!. Do outro lado, só o murmúrio da água. Mas por que trancar a porta, se estava sozinho? Ficou assim ainda mais alguns minutos e resolveu mandar chamar alguém que arrombasse a porta. Demoraria muito, teria de fazer ele mesmo. Foi até a oficina pensando em abrir a porta com um machado. Poderia até abrir as vidraças emperradas e fazer com que o ar pestilento abandonasse o quarto. Os olhos cansados não permitiam que encontrasse o machado. Depois de muito procurar, chegou a pensar que era inútil tudo aquilo, talvez nem conseguisse erguê-lo. Enquanto pensava, a ferramenta lhe saltou aos olhos. Como não a vira antes, se estava bem ao lado da porta? Tomou do machado e se pôs a subir a escada para a cozinha.
Do fundo do pátio, viu seu pai subir a escada com as costas vergadas. Como aqueles anos o fizeram envelhecer… Gritou com força para que pudesse o escutar – Papai! Papai!! Aqui! No pátio! Sou eu! O Antônio!! – e esperou que se aproximasse.
O pai veio ter com ele com os sapatos completamente embarrados, mas só percebeu isto quando Antônio lhe falou:
- Olhe só o estado de seus sapatos, papai…
- Mas que banho demorado, hein…? Sim, senhor… –, disse surpreso, o machado pendendo de uma das mãos. O filho perguntou:
- Onde é que o senhor vai com este machado, papai? –, o velho estava resignado:
- Ora essa… Estava indo arrombar a porta do banheiro. Achei que estivesse desmaiado por lá… –, o filho sorriu complacente e continuou a falar-lhe:
- Acho que dormi na banheira… Quando saí de lá, não vi mais o senhor e então resolvi enterrar aqui no pátio estes ossos… Aquele quarto fedia. Aliás, há quanto tempo ninguém entrava lá? –, o pai fez contas de cabeça e disse:
- Ora… há uns cinco anos, talvez… Depois que partistes, não tinha mais razão para entrar lá… Mas então o gato voltou um dia, hein? Lembro da tua desolação como se fosse hoje…
Esqueceu o machado no chão quando sentiu que o filho o abraçava enquanto voltavam para casa. Não seria um sonho? Teve certeza de que não era ao ter de responder com sacrifício sua pergunta:
- Mas e essa garganta, como vai?
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DOMINGOS COM SOL
Mais rápido que pudesse prever, num domingo claro de outubro em que seu sono durara até próximo ao meio-dia, Euclides pode ter certeza que sua vida havia mudado. Não podia lembrar se na noite anterior, ao dormir, já havia percebido isto, mas a cor que ele viu no céu quando acordou não permitiu que tivesse dúvidas.
Por todas as evidências, sabia que nunca mais seria o mesmo.
Durante o resto do dia foi igual. A fome que sentiu, a calma em escolher entre a partida de futebol habitual e o ócio puro e simples só fizeram com que cada vez tivesse maior certeza de que naquele domingo casual, justo no dia da semana em que mais se sentia sozinho pela falta de uma família e pela ausência total de rotina, alguma coisa em sua vida mudara em definitivo, ficando esquecido todo o seu passado na madrugada do sábado anterior.
Por uma semana inteira, Euclides cuidou especialmente de não esquecer que era outro. Embora todos os que convivessem com ele ainda continuassem a chamá-lo pelo nome que em seu íntimo detestava, sabia que não era mais aquele Euclides antigo, tão claro e diferente nos poucos retratos que tinha de si espalhados pela casa. Continuou a almoçar no mesmo restaurante que freqüentava desde que mudara para aquela cidade e, para os garçons que costumavam insistir em perguntar pelas novidades, dava de ombros e resumia a sentença de sempre: “Tudo velho…”, contentando a estes e a si mesmo, certo de que que ninguém, exceto ele, havia se dado conta da transformação por que passara. Por isso mesmo, decidiu continuar a levar sua vida da mesma forma como vinha fazendo há quarenta e sete anos.
Euclides não tinha mulher nem filhos, seus amigos mais íntimos haviam mudado já há algum tempo para outras cidades, em busca de empregos melhores. De seus parentes não tinha notícias fazia muitos anos. Por algum tempo, até supôs ser melhor desta maneira, assim poderia gozar em silêncio seus novos pensamentos e sensações mas, com o passar do tempo, começou a sentir falta de ter com quem dividir o êxtase psicológico que o maravilhava. Em seu íntimo, entretanto, temia que aquilo tudo não passasse de um produto de sua imaginação, que de fato nada ocorrera e que pudesse estar começando a ficar louco. E então, o que a princípio o maravilhara tanto, passou de súbito a atormentar-lhe. E a solidão em que levava sua vida pareceu cada vez mais aumentar este terror.
Euclides de Medeiros Guimarães foi o que leu em sua certidão de nascimento num dia em que vasculhava umas velhas caixas de sapato em busca do endereço de um amigo de infância que cogitara em procurar. Com a certidão nas mãos, Euclides pensava se realmente se tratava dele mesmo, se havia de fato nascido do ventre de sua mãe. A certidão tinha o testemunho dos avós que nunca chegara a conhecer e Euclides percebeu que quando envelhecesse não teria filhos nem tampouco netos com quem lembrar de sua remota infância interiorana. Euclides estraçalhou a certidão em pedaços e sentou em frente à televisão, com a intenção de se distrair, porém sua angústia aumentou ao assistir uma reportagem sobre idosos abandonados em asilos. Desligou de pronto a televisão e voltou a procurar o endereço do amigo, encontrando um anúncio de classificados que promovia uma agência de casamentos que uma vez julgou se tratar da solução mais plausível para a sua imensa timidez. Percebeu o quão miserável fora a sua vida e resolveu desistir da busca e tentar melhor sorte com o sono.
Encontrar a cama desarrumada não lhe deu vontade nenhuma de dormir. Afinal era um sábado e no outro dia não precisava se preocupar em acordar cedo. Escancarou a janela que dava para um terreno abandonado e permaneceu deitado olhando o céu claro que se estendia como um tapete. Buscou identificar algo parecido com a cor que notara naquele domingo em que acordara se sentindo diferente, mas a imagem do asilo que assistira no tele-jornal não lhe saía da mente. Da cabeceira, descobriu um livro que há muito deixara de ler e resolveu prosseguir a leitura, acabando por dormir com a brochura esparramada sobre o peito e com a luz acesa.
No domingo, quando acordou, lembrou que, nestes dias, costumava jogar futebol com os colegas de trabalho num clube que a empresa onde trabalhava mantinha para os empregados. Sem comer qualquer coisa, dirigiu-se para lá, onde todos, ao o encontrarem, perguntaram por onde havia se metido. Euclides se alegrou por terem sentido sua falta e mais ainda por lhe chamarem pelo nome, durante o jogo. Em sua habitual posição como goleiro, Euclides percebeu que a manhã estava linda, com o céu de um azul radiante. Olhando para o alto, ao admirar o brilho do sol, Euclides tomou um gol que os colegas não perdoaram: “Ô, Euclides, mas que frango, heim??”, tomou a bola do fundo da rede e falou a estes: “Deixe estar… Deixe estar… Aqui não passa mais nada…”, e devolveu a bola ao centro do campo para que a partida reiniciasse.
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ECLIPSE
Seus olhos não me abandonavam. Onde quer que estivesse, a qualquer momento, poderia topar com eles. Sem como reagir, me paralisava. Ficava à disposição. Deixava que avaliassem o estado de minha aparência, os cabelos desaparados,
as roupas puídas do uso continuado, as olheiras de dormir pouco e acordar cedo.
Às vezes acontecia no trânsito e só percebia quando as businas reverberavam nos tímpanos. O carro ao lado nunca era o seu, mas os olhos, esses eram sempre os mesmos. Negros como o breu, o que mais me incomodava era não poder distinguir entre a íris e a pupila. Se fossem olhos claros, não seria problema. Mas eram olhos negros e quando surgiam era como se tudo escurecesse. O dia mais claro de sol se transformava em noite alta.
Depois, à noite, não havia como esquecê-los. O que fazia era ouvir tangos e entornar copos e copos de conhaque, na tentativa de fixar a imagem que me perseguia de modo a estilhaçá-la por completo em mínimas partículas. Depois enchia um novo copo e tinha tempo sobrando para reconstituir o mosaico que nunca perdia a forma original.
Quando percebia, a noite se acabava e ainda estava desperto. A vida agora era ter de fazer todos os dias o café em silêncio. Nunca demorou tanto para que a água fizesse tremer a chaleira. Não me importava a cama fria, mas o silêncio na hora do café e a face ausente na hora de se despedir. O trabalho levava como a picar pedras: muitas horas de esforço desconcentrado. Ali, somente Antônio tinha idéia do que se passava.
- Não lhe procurou mais? – perguntou sem muita curiosidade, ao entrar na sala.
- Como não? Passei a noite com ela… – falei sem prestar atenção no que dizia, mas na pilha de papéis que tinha sobre a mesa.
- Ora, não me venha com essa agora! Tua cara é a de quem dormiu abraçado numa garrafa, isso sim… – provocou, esperando a réplica. Respondi e encerrei o assunto:
- Mas será que a tua imaginação só chega até aí? Ora vai…, não enche o saco, Antônio…
Antônio era um bom amigo mas enxerido o bastante para me fazer quase sempre perder a paciência. Quando nos conheceu, lembro que disse – Mas vocês foram feitos um pro outro, hein? Quem é que iria aguentar vocês, senão vocês mesmos? – e gargalhou freneticamente sem o mínimo senso de conveniência. Ela não achou muita graça dele e inclusive pediu para que não o trouxesse mais em casa quando estivesse lá. Mas Antônio tinha os olhos claros dum azul anil e jamais pude mentir a ele. Contei que ela não simpatizara com ele e pedi que não me procurasse mais em casa. Com o tempo, passei a lhe contar tudo o que acontecia em minha vida.
No intervalo entre os turnos, me procurou em vão. Não queria ouvir seus sermões e fui almoçar em casa. Não encontrei no trânsito ninguém que me lembrasse seus olhos. Será que estaria me acostumando a sua falta? Resolvi que não. Logo tudo escureceu, como se submergisse nos olhos negros. Naquele mar de petróleo, a sensação de afogamento era incrivelmente confortante. Assim, sem a realidade, estava melhor. Estacionei o carro em uma rua sem muito movimento e pus para tocar uma fita de Troilo que gravou para mim, decerto para que sofresse. Mas não sofro, estava feliz por não me ver. Só agora sei que fingia, dissimulava. Só agora, sob o sol do meio-dia, posso ver.
Bateu no vidro da porta um menino esfarrapado esmolando. Seus dentes fortes pareceram impossíveis. Tive dó e abri a janela. O sol entrou e se chocou com o tango. Ninguém ouve tangos de dia. Tangos são notívagos por natureza.
- Tio! Me dá um trocado…!
- Anda, tio! Dá um trocado aí.. – insistiu.
- Toma aí! – tirei da carteira tudo o que trazia e joguei no chão para que apanhasse. O menino ainda falou:
- Aí tio! Valeu hein tio… – e sua voz ao longe foi engolida pela voz gutural do portenho, que cantava: “Hoy… vas entrar em mi pasado! En el pasado de mi vida…”, até que a fita se acabasse aí e precisasse alternar o lado para continuar escutando.
Logo estava no escritório com os olhos pesando. A tarde passou e Antônio não me importunou mais. A janela mostrava o dia fechando. Vai chover, pensei. E veio rápido, a chuva. Antônio e os outros correram atrás dos baldes para as goteiras. Fiquei sentado olhando a chuva escorrer pela vidraça. Sempre que chove sinto vontade de não fazer coisa nenhuma. Só quero olhar. Em casa, fiquei em silêncio e continuei olhando. Não tinha nada melhor a fazer.
Ela não gostava de olhar a chuva. Ficava nervosa, reclamava. – Vou! Vou ficar aqui parado olhando a chuva. – eu dizia quando perdia a paciência. Não gostava de olhar porque seus olhos não se fixavam em nada. Parecia sempre estar procurando alguma coisa que sabia não poder encontrar. Nunca encontrou meus olhos e nunca os abandonou.



