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HORA DE VOLTAR
v.1 – 02.02.2003
v.2 – 07.09.2008
Por fim vejo que estava a fugir do ponto de partida.
Todas as direções convincentes. Eu próprio, convicto.
Meu destino vacilava entre meus dedos como um ramo, um ramo dourado, e eu esquecia de fitá-lo, contemplando a dimensão do tempo que naquele instante era todo meu e do universo, que ali encontrara seu lugar.
Onde andei que não vi os minutos despencarem e a barba das horas crescer?
O que fiz que não reparei no que fiz e não posso me livrar dessa certeza?
E agora, para onde vou, se o tempo não disputa mais meu destino?
Quando criança eu estendia a mão e me levavam.
Hoje não vêm as pessoas e nem eu fico onde estou.
Entregue a mim somente, me falta paciência, esperança e medo.
Por que, simplesmente, não desistir?
Imóvel, sem oferecer nada, nem perigo, que mal poderá haver comigo?
Nem tudo estará perdido quando eu partir daqui. Outros farão e sofrerão a história. Não avançarão mais sobre os oceanos como em outros tempos, talvez sequer cruzem aquela porta onde dizem estar toda a miséria.
Cada vez sem mais pressa. Cada vez mais em paz.
Estou no ponto de partida e vejo finalmente que é hora de voltar.
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A BALCONISTA
Os olhos é que estão nas ruas. Com números fixados na retina
e pés sentados na relva, calcula as maneiras de sua vida.
Os dias voltam a novas semanas, as horas não recuperam minutos.
Ninguém pergunta seus anos e nem o que deles foi feito
Mas quando lhes ponho nos olhos meus olhos, meus olhos tontos calculam
o que sobra de vida nestas ruas, o que parece de mim em seu sorriso.
Mesmo o fosco esmalte dos crepúsculos que viram os dias em nada
parece a um papel rasgado – maior fatalidade é perder-se da conta da vida.
Seus olhos que estão nas ruas não vêem números, faturas, vencimentos…
Mas pés desprovidos de caminhos e cálculos de olhares perdidos
num vão desdobrar-se de notas…
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O AFIADOR DE FACAS
a Ernesto Wayne (em sua memória)
em mudas manhãs de outono
quando o silêncio é tudo
e o resto da vida parece estar dormindo
vem ele
o seu apito
e a mãe dando facas e tesouras ao menino
para levar ao afiador de facas
na rua em que vivi outros ares da minha vida
vem de novo
de novo a mesma cara
um pouco mais de rugas
as mãos mais trêmulas
em outro outono em Bagé
o amolador de facas
tão mais sério no seu ofício
do que o que ficou de mim daquele outro tempo
1993
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SEM LICENÇA
agora que as letras decidem por este caminho
e se tomam de palavras e resolutas se propagam
neste caminho: o caminho destas linhas
e no seu tempo sem tempo dizem
ou indeterminadamente arfam arfam
sem licença deixam de pedir: socorro!
agora que o tempo destes traços está morto
onde jaz toda a intenção e toda a dúvida
agora que as letras decidem por este sentido
arfam arfam seu socorro ao silêncio destes versos mortos
e no seu tempo sem tempo dizem agora!
agora que sem licença os versos ressucitam
de onde jaz toda a intenção e toda a dúvida

ANTES DE QUANDO AMANHEÇA
o quanto abre os olhos em ter o dia amanhecido
e o dia se recosta nas árvores e nos animais
e assim fica a mirar seus olhos anoitecidos
pela janela e pela porta
pelos desvãos de frestas e pelas frestas cerradas
o quanto o dia se abre para seus olhos
os mesmos animais agora sob a sombra das mesmas árvores
a mesma casa fechada sob o dia aberto
o dia é um trecho encarregado pelo tempo de abrir portas de abrir janelas
para abrir os olhos é preciso crer no tempo
e para crer no tempo é preciso ter aberto os olhos
antes de quando amanheça o dia
é preciso crer no próprio dia

INUTILMENTE
flor do campo infeliz
flor do campo triste
mais triste que o outono desflorido
flor do campo a quem não pus os olhos
mas que sei que está por aí
inutilmente
no caminho dos animais

O CORPO DO INSTRUMENTO
as cordas do instrumento são expectadores
incólumes da ação dos dedos
o bojo ressoa à toa
o braço é feito de pedaços de mapas dispersos
ali se perde o olho daquele que calcula o seu
ouvido
e o resto do homem em sua volta se distribui
em torno do som já destruído

TEMPO DE UM TRAJETO
o tempo é só a lógica do que acontece
é só a inércia do que está parado
é só o espaço do que se locomove
o tempo é só o que apronta do que é disperso
é útil só do que é urgente
o espaço é só o limite do que acontece
é a propagação não é a orígem
é a palavra no verso da folha
não é a lucidez do poeta
está presente só no que é próximo
o momento é só o que importa
o que veio foi o que virá irá
o verso o momento o espalhará
até que se apague e que se o esqueça
o momento não o deixará permanecer
o trajeto é só uma conclusão
os pontos intercalados são meros sonhos
o trajeto é só o gosto ou só o desgosto
dentro de sua lógica o tempo não acontece
está presente só no que é longínquo
: parece próximo do fim de um dia só quando ainda não amanhece

IN YOUR HANDS
in your hands I have my flight
I am – from to lift up my mind
a seagull
or butterfly
and the wind is whom leads me

FIGURAÇÃO
meus olhos fitaram a tarde inteira
um bando inerme de passáros acossados pelo calor
não pensei sequer em amarrar meu pé ao poste
quando senti estar no céu
a tarde inteira meus olhos fitaram
um céu inerme a espera dos pássaros acalorados

TANGO OSCURO
hoy escribiré los mejores versos
antes de que le entienda
o tenga que decir: ¡Estubo borracho!
yo no pudo hablarle sobre sus ojos negros
la noche era oscura, deben ser negros,
pero estaré triste se conocerlos de otra cor!
Para mi eran negros y su piel el más suave
¡de sus palabras yo no recuerdo una sola! excepto un ¡No!¡Dejame, tonto!
seguiré su belleza como un esclavo
le habré amado como un muchacho
le escribiré hoy los mejores versos

EM HOMENAGEM À ALEGRIA DE FULANO DE TAL
todo mundo não percebeu quando Fulano de Tal entrou no boteco com uma cara de como nunca e abraçou seu Beltrano e lhe estendeu a carteira de cigarros e disse que estava muito feliz
todo mundo não percebeu quando Fulano de Tal saiu do lugar atravessou a rua sumiu por entre os carros encontrou uma prostituta lhe deu um beijo e disse a ela que estava mais feliz que nunca naquele dia
todo mundo não percebeu quando não se podia mais ver dali do bar Fulano de Tal
todo mundo não percebe quando alguma coisa de extraordinário acontece na vida de um homem
pode ser que seja apenas um dinheiro a mais no bolso pode ser que seja qualquer coisa, todo mundo pensa
mas Fulano de Tal quando entrou lá no boteco tinha uma cara feliz e sem desvergonha
- o qual é óbvia a felicidade! -
não é porque Deus sorrisse lá do céu e sua ordem de anjos uma vez na vida…
mas nem que uma vez na vida todo o homem podia ter uma alegria como a de Fulano de Tal àquele dia

PROCESSO
assim é que começa um mundo:
o tempo principia sob a aurora
os pensamentos todos estão desorganizados
as caracteríticas rugem dentro da imperfeição
quaisquer que sejam
mas é depois que começa o mundo
e que começa a pedra a ir sobre a pedra
que o mar despropositadamente cava sobre a areia
as palavras frestando-se por entre idéias
quaisquer que sejam
e depois o mundo já começado
só vem interpelar o sonho e a idéia
num percurso que já é sem volta
a resolução está dada

NOÇÕES GERAIS
para tudo e para todas as coisas
os momentos se dispoem
os movimentos se atrasam
o tempo oferta o ar
para onde se realizam
todas as coisas e tudo
para a porta que se abre
e para o círculo que se fecha
como contendo o que se achata
e aquilo que se liberta
para todas as coisas e para tudo
o tempo que só existe sendo
cada palavra por se tornar
e cada instante cometido
para o diálogo e para o silêncio
para a alma que se comove
e o desespero de saber-se
para o que se saiba entre o nunca mais e o sempre
para o que se avisa e o que se esquece
os movimentos se dispõem
os momentos se atrasam
para tudo e para todas as coisas

MONTANTE
a vida são coisas perdidas
são louças no momento de partir
e os cacos quando se perdem de nossa menor menção
são lugares pelos quais sem dúvidas passamos
e não nos ocorre que possamos lembrá-los
são inúteis regressos a uma vida que não merecemos
e os passos que demos de onde nossa esperança
se reverte em desistência e remorso
a vida são ainda coisas por perder
fragmentos do tempo que almejamos e que vemos
desgastados
sem que nos tivéssemos prometido mesmo a derrota
são desnecessários os esforços
porque, ao fim, tudo se debate dentro de sua
própria força
e nosso cansaço não podemos consagrá-lo ao
montante do tempo só por estarmos convencidos
de que lutamos
tais certezas são apenas desprendimentos da vida
cotidiana e, certo, sempre há o momento em que
alguém nos chama: – aqui, ó Fulano! -
e, ao contrário de toda a desesperança,
essa é uma certeza que ainda requisita nossa
comoção
mas sempre parece que alguém nos chama

AQUILO QUE NÃO É CATARSE
aquilo que não é catarse
não é aquilo que expulsa de fantasma o fantasma
não é aquilo que move fundo
move fundo aquilo que move o mundo
não é explosão aquela prometida do desejo
congratulado de tolerância
não é pergunta para respostas
não é o dialeto da dialética
não é o enfim da metafísica
aquilo que não é catarse
é chorar em silêncio e conformar-se com que
ninguém saiba
é engolir sapos rãs pererecas e todos os outros
anfíbios num banquete
é redimir-se sem estrela numa constelação distante
é ter a lua para ser lua
o sol para ser sol
é não amar o que remove
aquilo que não é catarse
não é aquilo que é poesia




Luxius. Vc guarda um tesouro em seu coração. Este espaço é um reflexo o brilho que há em vc. Parabéns. Muito bonito, muito interessante, vou olhar sempre. UM beijo