
Já vi isso em filmes, mas não sei.., isso não parece coisa que exista de verdade, não no Brasil… É duro de acreditar nessa história e esse menino já percebeu que estou acreditando muito pouco nisso tudo, então ele me olha com essa expressão piedosa como se eu fosse uma ignorante completa. E quem lhe disse que eu preciso entender dessa lenga-lenga?
O pai de Antonio está por ali também. Tenta acompanhar a explicação do investigador, não aguentou só ficar ouvindo, apesar da cabeça dolorida. Quando o Magrelo pediu um analgésico, ele também tomou um comprimido. Depois que a mãe disse quem era e onde vivia Nestor, ele começou a resumir as explicações e foi dando um jeito de ir embora. Antes que saísse, o pai ainda perguntou: “E o que você vai fazer? Vai trazer ele de volta?”.
“Seu filho é um dos poucos que sabe que não está nisso por acaso. O importante agora é saber se ele é que vai querer voltar. Eu preciso ir, não esqueça de deixar o computador ligado.”
Pela janela, Vitória acompanha o Magrelo com os olhos. Ele vai em direção à padaria do pai de Nestor, conforme ela indicou. Ela se volta para dentro de casa e o marido está olhando para ela. Maria João não está mais ali. Logo ela surge pela porta do banheiro e vai direto para a cozinha.
“Venham cá, o que tem pra comer nessa casa? Eu preciso comer, e vocês ainda mais do que eu.”
Como eu imaginei, nada de comer… Um feijão esquecido numa panela, uma caixa de leite pela metade, bananas muito maduras, batatas quase podres… Já não sei quem há mesmo pra ser salvo aqui. “Vitória, pega a caixa que eu trouxe… Minha glicose está indo abaixo. Venham, sentem aqui…”
Vitória está sentada mas não esboça ter força para muito mais que isso. Com custo, lavou três pratos para comerem o pão que a irmã acaba de tirar da caixa. O pai reluta em sentar, quer ficar em pé, diz que sente muita dor ainda, mas Maria João faz com que sente e coloca em seu prato um pedaço de pão e de queijo. Pelo cheiro, ele sabe que aquele é um pão como os que não há por ali, por melhor que sejam os pães da padaria do pai de Nestor. É como os que ele ajudava sua mãe a fazer na infância, como contraparte nas lições de português que ela providenciava no chão e nos papéis de embrulho. Vitória brilha o olho ao ver que dentro da caixa também havia espaço para o seu doce de figo. O brilho é de gratidão pela irmã, mas esta não a olha nos olhos para recebê-lo. É só o que ela come, e bem pouco. Maria João olha em volta, como se checando o estado de tudo. Já havia muito tempo que ela não vinha até ali. Tinha vontade de dizer muita coisa para eles, especialmente para José Francisco, mas não era hora disso. Num lampejo, ela já parecia saber o que fazer. Foi por isso, afinal, que Vitória a chamou.
“Se depender desse daí, podem esquecer do filho de vocês. Vamos atrás desse amigo do Antonio, esse Nestor.”


