
Você não imagina um hacker como eu. Uma hacker. Um hacker é um estereótipo sem face. Ninguém nunca sabe como ele pode ser. Pode um executivo engravatado ou um aluno do ensino básico. Pode alguém bom em matemática ou em inglês. O que é preciso é saber tecer e onde fixar a teia.
“Seu pai só vira pela tarde hoje, ele não disse?”, pergunta a secretária do pai, na antessala de seu escritório. “Sim, ele disse. Mas eu quero lhe fazer uma surpresa. Tudo que eu preciso é de um tempo sozinha. Todos já chegaram?”, pergunta Sphinx. “Sim, claro.”, responde a moça uniformizada. “Ótimo”, ela diz através do seu sintetizador de voz. E então ela entra no escritório do pai para trabalhar, como em todas as outras segundas-feiras.
O escritório é amplo e envidraçado. Daquela altura, ele enxerga toda a estação e boa parte do rio que circunda a cidade, principalmente sua área mais antiga e depauperada. Há uma mesa em formato de “S” e uma cadeira apenas, em uma das curvas da mesa-letra, onde senta o pai. É para a outra curva que Sphinx desliza. Por um comando remoto, as vidraças mudam de cor e a luminosidade do dia invade o escritório. Através do dispositivo que comanda com apenas a ponta dos dedos, ela liga seu computador e checa as rotinas habituais. Logo ela estará em Morphopolis, ao mesmo tempo em que continuará a projetar a expansão das linhas de transporte da empresa do pai e a verificar o andamento das obras que esburacam a cidade inteira.
Em Morphopolis, ela brinca de construção também. Lá, é preciso destrancar portas para que a cidade ganhe vida, o comércio funcione, a vida passe a existir e as ruas lotem de carros e pedestres. Em pouco tempo, as cidades de todos os jogadores se misturam e cada um passa a cuidar de sua atividade. Como aqui, ali também há hackers de todo o tipo. Há aqueles em busca de senhas de bancos, de informações sigilosas, agindo silenciosamente e também os pichadores, que agem em bandos. Também há as operações legais, redes, comunicações e transações comerciais, principalmente. Assim como atividades de lazer e até trabalho real. Por ali é o fim da noite. Em um dos prédios, uma janela mostra uma luz piscando sem parar. É um sinal de alarme que avisa sobre portas abertas acidentalmente. É o sinal que, do lado de fora, Blinker espera que ela envie.
“Você pode trazer meu café da manhã agora…” Claro que, assim como todo o mundo, eu também preciso comer.


