Hoje vi um adesivo num desses SUVs (sport utility vehicles) que são comprados pelo “esporte” da ostentação dos novos ricos brasileiros. Óbvio, se as classes C e D puderam começar a rodar por aí, seria preciso buscar com urgência uma forma de esculachar a plebe, como se esta já não se soubesse esculachada. Para cumprir essa função vital para a humanidade, nada como o velho e bom capitalismo, a religião do poder da moeda.
Pois então, o carro tinha o seguinte adesivo: “se está ruim pra mim, imagina pra você”. Na hora senti grande inveja dos esquimós, aqueles que vivem nos iglus, mas depois de alguns segundos percebi que o adesivo era exemplo ímpar de autêntica humildade desinteressada. Imagina, o sujeito está preocupado com a situação dos demais, dos desvalidos. O mundo, enfim, não está perdido. Há alguém a bordo de um SUV preocupado com os demais seres humanos, seus inferiores.
Então percebi que o dono daquele veículo de R$ 100.000,00 preocupava-se verdadeiramente com aquela fração da população brasileira que vive, segundo dados do IBGE, com renda per capita R$ 70,00/mês (são as pessoas que estão abaixo da extrema pobreza, algo como a classe R, ou também conhecidos como “miséria absoluta”). E que, inclusive, se ele deixasse de colar aquela expressão de suprema inteligência no reflexo reluzente da traseira do seu novo brinquedinho, seria uma pessoa incompleta.
Para completar seu senso de humanidade faltava aquele adesivo. E ele podia ser até uma pessoa infeliz, como saber? Mas não infeliz, assim, meio que mais ou menos. Ele poderia ser muito infeliz e, justamente por isso, precisava colar aquele tipo de frase no seu veículo, para mostrar aos transeuntes que ali dentro daquela lata de sardinha de custo avantajado circulava uma pessoa em busca de seu melhoramento moral e que sua iniciativa poderia ser apenas uma forma de dar a saber aos restantes que nem tudo está perdido, que ele vai encontrar a sua forma de tornar esse mundo melhor, do seu modo, no seu tempo.
Por enquanto, o que ele tem a oferecer é a sua compreensão da situação alheia e genuína preocupação. Se a moda pega, isso ainda vai ser ítem de fábrica.


