
Tudo é sempre difícil com Vitória. Mas, coitada. Não gosto de pensar assim, mas sinto pena. Piedade é um sentimento falso, é o que dizem. A piedade serve pra você não fazer nada por ninguém. Não é isso, então. É outra coisa bem diferente o que eu sinto, na verdade. Vitória confia em mim cegamente e vive mais sozinha que eu, que sou sozinha de verdade. Aquele homem é que a mantém como uma ilha. Aquele pobre diabo.
“Olhe, Vitória, já estamos chegando.” A irmã não olha em seus olhos, está agarrada no banco do carro que o taxista dirige alucinadamente. “Vire ali, moço, no posto de gasolina. É o segundo prédio. Pode nos deixar na frente.”, Maria João mostra onde é e dá de ombros, mas não consegue ficar calada por muito tempo.
“E o almoço?”
Como deixar de pensar no almoço? Vitória não tem exatamente o aspecto de quem se alimenta direito há alguns anos e mesmo assim não está nem muito gorda nem muito magra. Elas descem do carro e o taxista nem faz menção de ajudá-las com a bagagem, apenas abre o porta-malas e fica olhando os arredores por trás dos óculos. Mas muito rápido Maria João desceu a própria mala e uma caixa com pão feito em casa, queijo e doce de figo, feito por ela mesma e pela menina Alice, sua pequena vizinha e aluna, no último verão. Era o preferido de Vitória e aqui, nessa cidade, certamente não há figo como aqueles de seu pátio. O pão e o queijo ela compra de uma vizinha viúva, para ajudar. Lá em cima, José Francisco está acordando do desmaio do tombo, mas ainda não abriu os olhos. Em último caso, aí está o almoço.
“Vamos, vamos subindo.” diz para Vitória. “Você conferiu o troco? Por aquela direção, nós merecíamos um desconto.” Vitória consegue abrir a porta com dificuldade, ela está com a mola quebrada e por isso pesa uma tonelada, parece. Elas entram e começam a subir a escada. Maria João sobe pensando no que irão comer e também sobre o que irão conversar. Ela vai pensando como seria bom se tudo fosse como aqueles filmes de ação nos quais ninguém come, alguém sempre é o herói e resolve todos os problemas e as pessoas nunca usam o banheiro. “Nossa, minha bexiga está estourando…”


