eu tomo conta é dos despojos
sabe: a verdade vem em pedaços
como cortes de carne
sangrando à toa e falecidos
2
sempre resolvo o que fazer
sem pensar muito
costumo decidir
só pelo faro
3
mas não sou fera
é fato
sou fino, fraco, flébil
mas fútil, não
4
meu olhar mortiço
traz a moeda
mortífera
que Caronte não suporta
sequer olhar
5
eu cuido muito que a mentira se estabeleça
entre dentes fracos e gastos
e morra bem longe dos meus braços
desprezível que ela é
(a mentira nunca é digna de comer
mas quando come
ela sempre arregaça as mangas)
6
não descanso de dia
nem de noite
durmo, mas com um olho só
quando acordo, já estou desperto
7
até que me aproxime
deixo a paisagem com os pássaros
e as coloridas borboletas
de amirá-la, com amor,
ela se torna tão bela
o que ela teme não é minha presença
mas os lugares que meus pés trazem
8
diante dos fortes
eu me entrego sem luta
mas à esgueira das guerras
prospero, pela vileza que resta
9
eu vivo na cidade e no deserto
devoro a todos, pelo bem ou pelo mal
nunca fui dragão, sou o chacal



