
“Antes, eu posso lavar as mãos?”
Ele vai me dizendo que precisa de cooperação. Com o velho me olhando da porta, ele vai fazendo perguntas sem explicar direito o porquê. Mostrou o distintivo, mas diz que é da polícia técnica. Que está procurando Antonio e que ele pode estar numa enrascada. Foi a mãe dele que lhe disse quem eu era. O amigo de infância. O colega. Alguém que pode ajudar. Sua expressão está algo entre a prepotência e a fadiga. Vamos conversar, então.
Nestor não se mete em problemas, não cria problemas. Isso o pai pode garantir. Desde que a mãe morreu, Nestor cuida de si mesmo. Não descuida do que faz e o que faz, faz bem feito. “Já falei com o inspetor, ele esteve na escola. Já disse tudo que sei.”, ele senta-se numa das mesas da padaria, num dos poucos lugares onde é possível ver a janela do quarto de Antonio, quase em frente. O Magrelo tenta ser o mais objetivo que pode.
“O inspetor morreu, foi assassinado. Estou provisoriamente cuidando do caso, mas acho que tenho uma boa pista. Eu sou perito em tecnologia, não vou lhe interrogar, não sei fazer isso. Não sei interpretar a mentira nem revelar a verdade, mas vejo o que há dentro de cada bit. É o que devo fazer. É o que esperam que eu faça.” “Hã-ham?” “Seu pai vende analgésicos?”
Nestor vai até atrás do balcão, pega um envelope de papel prateado e o traz de volta à mesa, com um copo de água em uma das mãos. Ele ajusta os óculos sobre o nariz e volta a sentar. Olha para cima, como de hábito, e vê o que parece ser a silhueta do pai do amigo desaparecido, que some em seguida. “Você tem a chave de Morphopolis? Foi isso o que ele enviou, ontem, na mensagem truncada?”
“Quê?”
“Eu preciso disso. É para o seu bem.”
Nada mau para um aprendiz de policial. Nestor puxa do bolso das calças seu telefone e entrega para que o Magrelo examine. Isso dura poucos minutos. Nestor fica observando. Seu pai também fica observando, de longe, mas logo assume o balcão da padaria. Há clientes. O que o Magrelo vê no telefone pode ser o que está procurando ou não. Isso depende de Nestor ser mais sério ou correto do que fiel. É uma pena que o Magrelo não saiba avaliar os modos de uma pessoa.


