
“Hoje cedo consegui localizar o sinal e a posição do telefone do seu filho.” Ok, o sinal vinha de Quito, no Equador, mas eu não preciso dizer isso. O que ela quer saber é se ele está vivo e longe de perigo. Vivo, sim. Longe de perigo? Como saber?… “Bom, eu captei seu sinal ontem à tarde, numa tentativa frustrada de conexão. Mas tenho certeza que era ele, porque o acesso estava criptografado no modelo que ele mesmo criou.” Claro, pela expressão e fisionomia, é óbvio que não estão entendendo o que estou dizendo. Vamos lá, então. Do começo.
Maria João insistiu que o Magrelo explicasse tudo. Tintim por tintim. Então ele foi dizendo tudo, que o inspetor achava que poderia ter sido um sequestro, que não acreditava nas suas hipóteses, de que o filho deles pudesse estar envolvido num grupo de terrorismo digital. Não, ele não era um terrorista. Nada disso, claro que não. Ele deveria ter sido seduzido por um grupo desses. Há muitos por aí. Isso é cada vez mais comum entre adolescentes. Tudo acontece através de videogames inocentes tipo os que ele próprio, o Magrelo, costuma jogar. Ele até já havia tentado se aproximar de muitos destes grupos, mas muito rapidamente descobrem sua ligação com a polícia e excluem sua id (algo como um código de autenticação intransferível). É uma tecnologia imune a fraudes, pelo que se sabe. A mãe sabe que o filho costumava jogar muito no computador, mas não se importavam com isso, nem ela nem o pai. Antonio não era um filho que desse trabalho. Tirava boas notas no colégio, tinha amigos e parece que até uma namoradinha. Mas andava calado demais nos últimos tempos e, ao mesmo tempo, aparentemente muito feliz.
“Eu não sei com qual grupo ele se uniu, mas sei que fez isso, que não está sozinho.” Torço que sejam aqueles que querem apenas brincar de “ter emoções”, mas não poso dar certeza de nada. “Mas por quê? Com que objetivos?”, me pergunta a mais nova delas, a tia. “É difícil dizer, mas ele sabe o que está fazendo, ele não está inocente nisso e não quer ser encontrado. Isso até pode começar como um jogo, uma brincadeira, mas lá pelas tantas há uma opção a fazer.” Enquanto elas entreolham-se, incrédulas, eu peço um copo de água, até dar um jeito de encontrar o nome do destinatário de sua conexão. “Nestor. Aqui está. Conhecem algum Nestor?” A mãe responde que Nestor é o seu melhor amigo. Amigos desde a infância. Estudam na mesma escola. Mora do outro lado da rua. Bom, preciso saber o quanto sabe esse Nestor. A mãe vai até a janela e aponta a padaria quase de fronte ao prédio. “É ali. Ele é o filho do padeiro.”
Desde a manhã o Magrelo sente a cabeça latejar. Claro, indo dormir pela madrugada e sendo acordado pela notícia da morte do inspetor, ele não chegou a dormir mais que três horas. Sua vontade é desabar como o pai do menino, no primeiro lugar disponível, mas não será o sono que irá fazê-lo parar de jogar.
“Alguém tem um analgésico?” Eu preciso sair daqui. E rápido.


