os animais invadiram de vez a cidade
e se alguém abrisse o espetáculo
todos fariam seus urros
(a alguns
a dor lancinaria
por instantes)
funcionários do bem e do mal
lavam o mundo com as mãos,
como na criação
e, de longe, um velho caramujo
atravessa o mundo submerso,
mas ele ainda está a caminho
nas costas eretas
carrega janelas e portas
de uma casa emprestada a alguém
(os outros suportariam
esse peso
só um pouquinho)
cada um no seu domínio
evapora cobras, lagartos, silêncios
e dão sua parte ao anúncio
todos querem o carro do sol
mas só o caramujo
sabe o modo de sobreviver
(alguns suporiam
ser sempre
os melhores)
tudo se passa tão rápido
que sequer parece
haver tempo de ter existido
menores que a luz
os animais colocam
sua sombra por onde passam
no âmbar, no negro, no azul
mas o caminho do mundo
é o mesmo de sempre
(alguns gostariam
de poder
ou inventá-lo)



