
Os piores ambientes do mundo são os hospitais. Nem as prisões imundas podem com o horror branco desses corredores. O silêncio de morte e medo calando as bocas impede o grito real que nasce da boca do desespero. Um desespero de muitas bocas, de vidas que não querem partir, entregues à fadiga, sob os cuidados da sorte. Ali, as pessoas que entram, algumas chegam em macas, outras nos braços umas das outras. O tempo pode estar tanto a serviço da cura quanto da morte, tudo é uma questão do que consta no prontuário, de quem está pagando a conta e do que é feito a partir daí.
O horror dos horrores foi terem feito com que eu entrasse na sala e encontrasse, além dele, muitos outros corpos aguardando identificação. Logo ele, que deve ter colocado naquela mesma situação pelo menos uma dúzia de pessoas, ali está, coberto por um lençol branco, apenas com o rosto de fora. Se eles soubessem que eu mal posso com um corte no dedo, teriam chamado a mim? Mas por que eu, afinal, e não a sua família? A resposta é simples, era o meu número que estava nas últimas 10 ligações do telefone dele e não há notícia de que tivesse família, pelo menos não nessa cidade. Claro, precisava ser comigo, como não pensei nisso antes? Eu preciso passar por isso para trabalhar onde trabalho. Quando é que vou aprender?
“Onde fica a saída? Preciso dar um telefonema. Posso usar o telefone aqui dentro?” pergunto para uma enfermeira que, como uma árabe, está tapada de branco até os olhos com os quais me aponta uma porta automática através da qual se enxerga a silhueta de algumas pessoas. Eu vou por ali e quanto mais me aproximo, vou percebendo que são pessoas que estão rindo, quase até contorcer o corpo. Abro a porta e eles continuam rindo, sequer olham para mim. Não entendo o que vejo e continuo. Estou procurando um lugar aberto, onde possa respirar sem o cheiro de cloro. Depois de passar por alguns lugares lotados de gente, chego a um saguão que dá para a rua e ali encontro um banco onde sentar. Onde está o telefone do pai do menino? Não posso deixá-lo esperando.
“Alô? É o seu José, pai do Antonio?” Nossa, que modo de perguntar é esse? Vou matar o homem do coração. “Sou eu, o técnico dos computadores.” “O senhor sabe, o inspetor foi assassinado.” “Um tiro nas costas”. “Acham que é vingança, não sabem ainda.” “Preciso que o senhor me ajude, certo?” “Até designarem outro, eu vou tomar conta do caso.” “Acho que já descobri muitas coisas, logo eu vou até aí.” “Preciso que deixe ligado o computador do Antonio e que encontre suas contas de telefone, pode ser?” “Desculpe a demora. Deveria estar aí de manhã cedo e já é praticamente meio-dia.” “Alô?” “Alô?” “Merda de ligação.”
Antes de morrer, o inspetor apenas chamava o técnico de Magrelo. Em pensamento, claro. O Magrelo isso, o Magrelo aquilo. Seu nome mesmo era Tiago. Na verdade, o inspetor detestava depender de alguém de fora da polícia. Alguém que não sujava as mãos, apenas ficava “brincando” de investigar, metido nas entranhas dos computadores, como se fosse um médico das máquinas. O Magrelo, antes um mero coadjuvante da investigação, agora assumia a dianteira dos fatos. O problema é que ele é mais um dos que fala menos do que sabe. Pior ainda para quem não sabe lhufas do pouco que ele diz.


