Quem me aco
rdou foi o som da porta fechando, mas acho que antes disso já havia pressentido seu movimento e passos rápidos. Silenciosa como sempre, deve ter saído antes de clarear o dia. Todos os dias ela acorda assim e é graças a isso que temos uma casa habitável. Vitória não descansa. Ou melhor, descansa não descansando. Não lê jornais, empilha-os e dá destino àquele monte de notícias velhas como trastes que são. O tempo é para ela como seu próprio sangue. Apenas flui. Por isso, Vitória jamais envelheceu.
Ele não percebeu, mas está dormindo no sofá de sempre. Desta vez a TV está desligada. Parecem aqueles dias de verão quando os jogadores dos times brasileiros entraram em férias e no resto do mundo não há nenhum torneio iniciando. Dias de vácuo nos quais ele leva sua família a uma pequena colônia de férias no litoral. A praia lá é também sempre igual. Ali, há alguns anos, eles viveram um susto muito grande quando Antonio foi resgatado do mar por um homem de meia idade, salva-vidas aposentado. José não sabe nadar. Ele é duro como as pedras do lugar onde nasceu. Mas não foi sempre que ele viveu para criar musgo em torno de sua pele. Isso começou na prisão. Mas José não quer mais ouvir nem falar nisso.
Com as mãos no joelho, ele procura localizar a fonte do som do telefone tocando. Depois que os telefones começaram a andar pela casa, podem estar em qualquer lugar. Na prateleira de livros, talvez. Não, no quarto de Antonio. Vitória nunca havia deixado o quarto chegar naquele estado. As paredes pareciam deteriorar-se e um odor de sono fechado o intoxicou imediatamente. Localizou o telefone junto a uma pilha de roupas mas, antes de atendê-lo, precisou abrir a janela emperrada do quarto. “Merda”, ele disse. E desistiu.
“Alô?” “Quem?” “Ah, sim… Claro, lembro sim.” “Como?” “Morto?” “Como?” “Onde?” “Sim.” “Espero, sim.” “Hã-ham.” “Quê?” “Certo, eu ligo. Sim, deixo ligado.” “Contas de telefone? Vou procurar…” “Sim, não vou sair, vou ficar aqui.” “Que horas são???” “Merda!”
José estava saindo do quarto e não viu o skate de Antonio no chão. Quer dizer, foi a última coisa que viu. Não, não. José não está morto. A última coisa até que elas o encontrassem ali.


