
O que eu ouvi foi o estampido. O som seco e opaco. Todos correram imediatamente para a janela e eu também. Lá embaixo estava o policial que há pouco me dera seu cartão amarelado, dentro de uma poça de sangue. A gritaria foi grande. Justamente na hora em que a sirene liberava para a rua todas as turmas. O Afonsinho não conseguiu segurar os mais curiosos, por mais que tentasse ele mesmo fechar as portas de correr que limitavam a escola da rua. Eu não fui. Não gosto dessas cenas, e logo a polícia chegou e também uma ambulância. Então foi que desci, quando os carros já se amontoavam na rua estreita e os motoristas começavam a soar a trilha da sua impaciência no som de suas buzinas. Afonsinho não saia da porta e só deixou os maiores sair por ali. Os demais sairiam pelo portão dos fundos. Ele iria ficar ali avisando os pais, até que o último se fosse. Quando passei ele me disse, de longe: “Foi um assalto, ele já saiu morto daqui.”
As coisas costumam acontecer porque é seu destino mas, às vezes, é só acaso mesmo. A morte do inspetor, por exemplo. Quem imaginaria? Executado em plena luz do dia? Qual a verdade? Onde ela está? Quem pode ou não dizê-la? De que lugar? E por quê?
Ninguém viu quando o menino chegou e sentou no banco ao lado daquela velha árvore na praça e ficou horas a fio digitando no celular, absorto. Nem muito menos de onde ele veio antes, onde ele estava? Ninguém imagina que esse menino cumpre uma rotina. Sua jornada de trabalho dura o dia inteiro e custa peregrinar lugares e espreitar vítimas. Não tem mesmo uma cara de caçador? É só uma questão de zoom para ver melhor. Esse menino é só uma fera solta, um bicho solto e tem nas suas costas uma dúzia de irmãos, ou quase isso, para alimentar. Seu chefe é um velho gordo que só sai de casa para ir ao estádio de futebol mas que lhe jurou a vida se não recuperasse a encomenda. E rápido. “Vai, vai, vai!” é o que ele diz para todo mundo. O menino, ele tem um nome, é José. O José é o menino que matou o inspetor. Ele anda armado desde os oito anos de idade e é seco como um palito. De olhar, não se imagina a força que ele tem. José tem muita raiva também. E ele não gosta de quem não gosta dele. Pois José esperava somente roubar um par de tênis, um telefone pelo menos, neste fim de manhã. Mas então o acaso colocou o inspetor no caminho de José e ele, assim como Antônio, tem uma memória prodigiosa. Foi bater o olho e lembrar da cara amarrotada do policial. Ele levantou do banco e foi caminhando em direção ao carro do inspetor. O homem ali, de costas, e José apenas precisou apertar uma vez o gatilho. Depois era só ganhar a rua, que já estava ganha. Ele não disse, dessa vez, que essa história não terminava ali?
Ainda procuro Marcela, mas acho que ela saiu pelos fundos com as amigas. Quem vai investigar o sumiço do Antonio agora? No caminho, finalmente a encontro. Ela está sentada ao lado pai, parados no sinal. Está com lágrimas nos olhos e o pai lhe fala alguma coisa, inaudível para mim, que estou no outro lado da avenida. Ela me enxerga e fica me olhando paralisada. Eu também fico. Paralisado. Sempre. Seu pai me olha também e, quando parece lembrar-se de mim, um caminhão atrás do seu carro dá aquela imensa buzinada com som de tuba, e eles vão adiante, sem acenos de mão. Vou escrever alguma coisa para ela. E aqui foi que percebi a chamada perdida de Antonio, a mensagem que não pode ser entregue. Ele já havia me ensinado como recuperar esse tipo de mensagem perdida. E a minha memória também não é tão ruim assim.


