
Ainda sou como criança. O enjoo não me deixa nem pensar. O bafo de fora é insuportável, mas preciso ficar olhando o mais longe possível e esquecer que tenho um estômago. Como essas pessoas conseguem viajar com crianças? Ainda faltam pelo menos duas horas até Santa Maria e depois então mais sete, mas isso parece não ter fim. Preciso de um remédio, um daqueles como os que Vitória toma. Que derruba a gente. Será que se consegue uma farmácia na espelunca daquela rodoviária? Um sonrisal, que seja?
A estrada é poeirenta e o dia é quente. Um pouco demais até para setembro. As poltronas com cheiro velho e cor desbotada denunciam os muitos anos de vida do ônibus. Lá atrás está a cidadezinha, que vai sumindo, sumindo e de repente desaparece em definitivo atrás de uma curva. Aquelas pessoas estão ali há tanto tempo que são como suas pedras, seu calçamento. Porque tantas se foram embora, o lugar lembra uma ruína. Seus habitantes renovam os dias como se fossem logo acabar e vivem-nos um após o outro, de sol a sol. Maria João gosta da cidade não pelas qualidades do lugar, mas porque nunca viu motivo em buscar outra vida, longe dali. Além do mais tinha seus livros, suas roseiras e o pequeno pátio no fundo da casa onde cuidava dos gatos vadios de toda a vizinhança.
Um dia aconteceu que alguém teve a ideia de envenenar os bichanos e o desplante de deixar uma carta por baixo da porta. A pessoa dizia que a noite deveria ser noite e que os gatos estavam acabando com a noite de sono de todos que moravam ali, tal a quantidade de animais que se agrupavam nos arredores da sua casa, brigando, acasalando-se, incomodando-a. Foram mais de trinta gatos envenenados todos de uma vez e, quando amanheceu, viu que eles estavam todos em seu pátio, sob uma árvore e olhavam para a porta como se esperassem sua saída. Ela chamou um conhecido que fazia transportes em um caminhão quase sucata, colocou os gatos ali, um por um, e os levou à capital, em busca de um veterinário. Nenhum sobreviveu. Foi a última vez que saiu dali. Agora deixava a cidade para trás, um amor não correspondido que ainda estaria lá na sua volta, livros, a menina Alice, novos gatos e a casa cercada de rosas vermelhas, partindo para a capital a fim de amparar o desconsolo da irmã com mais dúvidas que certezas em mente.
Antonio bem que podia ter telefonado… Se ele se foi, quem há de culpá-lo? Aqueles destrambelhados não poderiam ter posto um filho no mundo. Vitória, coitada, não pode nem consigo mesmo. Por que não veio morar comigo, quando ofereci? Agora deve estar pensando o pior de tudo, passando os piores momentos. Sozinha. Como sempre. Dessa vez ela vem comigo. Vem sim. Ela virá.


