
“O que eu estou falando é a verdade. Eu não sei. Já faz muito tempo que ele sumiu, na verdade. Comigo, pelo menos, ele não falava direito há meses.” O policial não parecia muito atento ao que Nestor dizia e se limitava a apertar e desapertar o botão do gravador. “E quando foi a última vez em que estiveram juntos?”, interrogou. “Na última quinta-feira, aqui na escola.” Nestor respondia sempre olhando o inspetor nos olhos, parecia ser ele a investigá-lo. Queria saber o quanto aquele homem era confiável, antes de dizer qualquer coisa. O diretor da escola acompanhava a conversa e até tentou explicar que Antonio era um tipo de aluno especial, que tinha uma memória prodigiosa e que tinha um desempenho acima da média, mas o investigador estava interessado era no que Nestor tinha a dizer e logo percebeu que ele não falaria mais do que o necessário e que, talvez, soubesse bem mais do que aparentava saber. Só outro moleque metido a besta, era sua conclusão, mas não poderia, pelo menos por enquanto, desprezar sua ajuda. “Você pode ir. Mas eu posso voltar a procurá-lo, entendeu? Veja se lembra de algo mais e qualquer coisa liga presse número aqui.” E lhe alcançou um cartão pessoal.
Ele se mete em encrenca e eu é que tenho que dar explicações. Novidade nenhuma. Sempre foi assim. Agora todos vão querer saber o que eu mesmo sei muito pouco. E Camila vai ser a primeira…
De longe, enquanto o diretor não parava de fazer perguntas, o policial ficou observando o garoto dirigir-se ao pátio e o assédio que se fez em torno dele. De repente lembrou-se da noite passada, do condomínio onde encontrou sua “dose de repouso”, e a diferença abissal entre aquele mundo de lá, no qual ele podia exercer à vontade sua autoridade e este, onde precisava andar ao tato, cheio de dedos. Imaginou-se revistando um a um aqueles meninos criados a Nescau e sabia que, cedo ou tarde, acabaria encontrando também ali vestígios muito significativos ou mais que isso, até. Sua autoridade ali, porém, estava limitada pelo mandado judicial ao qual assistia o diretor da escola, um velhote calvo e inseguro, assinar com a mão esquerda. Ele também era canhoto. Aquele papel lhe dava passe-livre na escola e ele já começava a planejar quando traria o magrelo para conhecer a sala multimídia. Alguma o garotão devia ter aprontado lá. Ele não teria perdido a oportunidade de exibir o que sabe fazer. Teria?
“O que ele queria? O que vocês acham? Me dar os parabéns? Queria saber do Antonio. Eu não sei de nada. Mas eu não sou um apêndice do Antonio.” Sou seu amigo, e só por isso eu vou ficar quieto. Nada mais que isso. “Ah, vão encher outro, tá? Perguntem lá pro diretor. O Afonsinho é quem pode aplacar a curiosidade de vocês.”
Depois, conversou ainda um pouco mais com o diretor, até não terem mais o que dizer. “É tudo o que sei sobre o Antonio”, recolheu-se o diretor da escola diante das perguntas que o inspetor de polícia fazia. “E os seus pais, como estão?”, o diretor perguntou ao policial que, da porta, virou-se parcialmente. “Não têm idéia do que fazer…”
Aí está o som da sirene. Sim, ainda usam sirene para chamar os alunos de volta à sala.


