
Cedo ou tarde a verdade surge e traga a ilusão como um maremoto. Estou esperando pelo maremoto e enquanto isso meus ossos tremem por dentro, decantando uma espécie de desespero silencioso que percorre meu corpo, como meu próprio sangue. Não quero mais olhar pra dentro de casa, não posso arredar o pé daqui. Esse dia que está nascendo, que dia é esse?
Ele não conseguia sentar, não conseguia deitar, não conseguia parar. Manter-se em movimento lhe dava a sensação de estar acontecendo algo, ou de algo poder vir a acontecer. Por um tempo mexeu nas coisas de Antonio buscando pistas, depois mexeu nos jornais, ligou o rádio. Olhou os livros na prateleira, inclusive o seu próprio, e parecia esperar que algum deles, ou algum daqueles autores em carne viva, saltasse da lombada das brochuras e viesse compartilhar consigo algum tipo de consternação, ou piedade que fosse. Mas os livros são apenas coisas, quando longe dos olhos e das ideias. Sem querer, virou café sobre a mesa e ficou olhando o líquido escurecer o pano branco. Um maremoto sem vítimas, diferente do que vivia e que começava a varrer do seu espírito a serenidade habitual e a esperança que, agora, necessitava mais que qualquer outra coisa.
Preciso esperar pelo pior. O pior é esperar. Preciso ter certeza que está vivo. Em algum lugar. Como vou saber? A vida é previsível na minha idade, não na dele. Antonio nunca fugiu de casa, nunca se perdeu de nossa vista, nunca nos deixou esperando. Que tipo de surpresa é essa agora? Você parece tão triste e eu não tenho uma palavra em minha boca pra lhe dizer. Você não quer minhas lágrimas. Não quer nem vê-las. Não acredita nem em sua existência. Não quer sofrer comigo. Eu não posso resolver isso. Está além de mim, sempre esteve. A polícia vai dar um jeito nisso. Agora, através dos computadores, se consegue tudo. Lembra do que o inspetor disse? Se há algo, se há alguma trilha, eles irão descobrir. Veja, não me olhe assim… Estou acabado, inerte, não seja o meu espelho. Seja melhor que eu.
“Saia daqui, agora.”


