
Enquanto atravessamos o mar de gente, Blinker fica falando sem olhar pra mim. Do que falou, entendi só algo como “Se prepare. Ela vai surpreender você.” As costas curvadas denunciavam muitas horas na mesma posição e nenhuma atividade física. Será que vou ficar assim também?
No fundo do salão, uma porta de saída encostada permite antever o escuro da noite. É por ali que eles saem e dão em um pátio aberto, no qual algumas poucas pessoas conversam enquanto entram em uma van. Antonio quer saber se ela está ali afinal porque, para ele, sua imagem era como a de uma divindade, alguém inatingível. Blinker o detém logo que saem pela porta e diz, olhando bem em seus olhos, “Não tenha medo, ela sabe quem você é e o que você fez para estar aqui.” A resposta foi “Claro, não se preocupe.” Blinker ainda impedia a sua passagem e advertiu uma última vez: “Não tire conclusões precipitadas.” Os que estavam ali já começavam a subir os degraus da van. “Vamos?”, perguntou Antonio. Blinker lhe deu as costas e foi andando em sua frente. Sem olhar para trás ainda falou: “E não esqueça que o seu nome é Sphinx.”. O coração acelerado não impediu que ele seguisse os passos do outro e sumisse por trás da porta da van, fechada por alguém que já estava lá dentro.
Ali dentro estão todos em silêncio e assim é que também nós entramos e permanecemos, quietos como pedras. Ela está dormindo?, eu gostaria de perguntar mas não me atrevo sequer a cochichar. Ela está com o rosto voltado para a janela, em sua cadeira, mas não posso ver suas mãos nem seu rosoto. Fico sem saber a resposta daquela pergunta até que ouço a uma voz sintetizada, em volume idêntico ao de uma voz humana. “Venha até aqui, você, o último.” Sou eu mesmo.
Blinker estava observando Antonio levantar de onde estavam e aproveitava para confirmar se estavam mesmo todos ali. Sem contar o motorista, eram sete ao todo. Ele estava orgulhoso por ter descoberto o último, eles já estavam desistindo do plano original e pretendiam continuar mesmo assim, mas Sphinx relutava e fizeram isso porque confiavam em sua intuição. Agora ela daria a Antonio a última peça do puzzle que montavam.
Você deve pensar como alguém como eu pode estar fazendo isso. Mas não deve pensar assim, fazer essa pergunta. A pergunta que deve fazer, não se esqueça disso, é “por que estamos fazendo isso?”. Eu gostaria de saber como encontrou a trilha de Blinker. “Você pode me contar isso, depois?” Nessa hora eu normalmente estou dormindo, estou muito cansada, meus músculos me sacrificam. Só estava esperando o último. Eu pensava que era outra pessoa. “Daqui a pouco poderemos conectar para a última simulação”. “Volte para lá, com Blinker, eu tenho uma surpresa esperando você, Delest.”
Antonio sentou ao lado de Blinker e abriu a tela de um pequeno dispositivo. Não conseguia tirar o branco dos olhos de Sphinx da mente, mas mesmo assim conseguiu acessar a sua conta de mensagens. O Nestor precisava saber daquilo. Ele havia conseguido. Teria recebido sua mensagem, a que escrevera às pressas no banheiro? Mas a mensagem que pulava em sua tela dizia: “I’m sorry to have to inform you that your message could not be delivered to one or more recipients. It’s attached below. For further assistance, please send mail to <postmaster>. If you do so, please include this problem report. You can delete your own text from the attached returned message. Mailbox does not exist.”
Não seja pateta, Delest. Nenhuma informação pode sair daqui de dentro.


