A serpente Ouroboros em um antigo manuscrito alquímico grego
Na última semana uma notícia foi amplamente reproduzida nos órgãos de imprensa do mundo inteiro: a descoberta de um exame não invasivo capaz de detectar precocemente a síndrome de Down ainda no início de uma gestação. Esta descoberta faz muito sentido num país como os EUA, onde, pelo menos em alguns estados, o aborto é permitido. Também em outros países que permitem o aborto, a descoberta pode levar a que muitas famílias e principalmente as mães tomem uma decisão, legal e legítima nesse caso, por que se interrompa a gestação de um feto que apresente a síndrome de Down. No Brasil, o aborto é considerado crime e isso deveria bastar para que se concluísse que se trata de um assunto desinteressante aos brasileiros, mas isto seria uma grande hipocrisia e, além disso, o exame presta-se também a outras finalidades para aquelas mães e/ou famílias que pretendem levar a cabo a gestação, como uma maior busca por informações e a diminuição do impacto psicológico da notícia do nascimento de um filho com deficiência, dentre outras possíveis.
Mas, além das questões acima mencionadas, o assunto não é desinteressante porque torna evidente, antes de mais nada, duas situações imbricadas que deveriam primeiramente ser consideradas em separado. Uma questão é o aborto, que está colocado legalmente como um crime e sobre o qual pesa um juízo moral e até mesmo religioso praticamente indelével, pelo menos por parte daqueles setores sociais comprometidos com a manutenção desse status legal. Outra questão é a filiação e a forma com que a sociedade compreende atualmente o estatuto da família, seu formato e finalidades.
Dentre estas questões ainda há a questão da possibilidade de que um filho venha a nascer com algum tipo de deficiência, seja intelectual, física, sensorial ou mesmo multisensorial. Um filho, um ser humano, gestado para pertencer a um núcleo social com finalidades específicas, com um papel e lugares pretendidos senão reservados, mas que possui diferenças para as quais o mundo e a própria família parecem ainda não querer olhar, pelo menos não ainda de forma tão sincera e direta. Se muitos médicos ainda hoje são capazes de predizer um vida de desgraças na sala de parto, que dizer de com meses de antecedência e com a possibilidade de mudar-se o curso da história? Assim é que, mesmo sendo proibido no Brasil, muitos pais (não todos, evidentemente), de posse da informação de que seu filho nascerá com a síndrome de Down, optarão por interromper a gestação, antes mesmo de vir a saber exatamente do que se trata e quais suas reais implicações para a vida de uma pessoa, como lembra Carol Boys, presidente da Down Syndrome Association (http://www.bbc.co.uk/portuguese/reporterbbc/story/2008/10/081007_sindromedownnovoexame_np.shtml): “É muito importante que os pais tenham informações precisas sobre a Síndrome antes que tomem a decisão de interromper ou não a gravidez.”
Os números sobre o aborto de fetos que apresentam a alteração cromossômica em países onde o aborto é permitido, entretanto, são conflitantes. Talvez haja ainda muita especulação por grupos anti-aborto que por exemplo afirmam que, na Espanha, 9 entre 10 fetos com síndrome de Down são abortados(http://www.cnsnews.com/public/content/article.aspx?RsrcID=37421). Enquanto que na Inglaterra o número de nascimentos teria aumentado em 25%, conforme a Down Syndrome Education International (http://www2.uol.com.br/vivermente/noticias/mais_qualidade_de_vida_para_pessoas_com_down.html). De um ou outro modo, o que passa a estabelecer-se como padrão clínico é algo um tanto quanto assustador, ou seja, as famílias serão compostas praticamente como um núcleo industrial, antes que afetivo, e as gestações serão avalizadas clinicamente, como num dos tantos padrões de certificação de qualidade creditados a empresas e indústrias por institutos como a ISO, por exemplo.
É sabido desde há muito tempo, provavelmente desde a identificação da síndrome pelo Dr. John Langdon Down em fins de séc. XIX, que uma de suas características é a capacidade de afetar o sistema neurológico em dimensões ainda não precisamente esclarecidas pelo conhecimento da genética humana. O que as pesquisas que visam esclarecer as condições pré-natais em relação à síndrome de Down tem trazido ao conhecimento científico e à sociedade contemporânea é uma nova versão de um antigo tipo de afetação (e este é um termo que cai bem aqui), um que afeta especialmente a ilimitada vaidade humana e sua busca pela emancipação ao ideal eugênico. Se no passado as pessoas com deficiência padeciam pela dificuldade de aceitação afetiva e social e a sociedade elegia a segregação como forma de efetivar esse desejo, atualmente parece muito preferível que ninguém precise passar por isso, que inclusive estes problemas nem cheguem a existir e que, enfim, as pessoas com deficiência nem cheguem a nascer, afinal é preciso que as pessoas tenham cada vez menos preocupações para com os outros e cada vez mais tempo livre para dedicar-se a si mesmas e às suas coisas e objetos. É a demorada urgência da própria vida consumindo-se a si própria sem descanso.


[...] Cada vez menos e cada vez mais http://morphopolis.wordpress.com/2008/10/15/cada-vez-menos-e-cada-vez-mais/ [...]
Concordo com você, no meu terceiro mês de gestação descobri que meu bebê seria Down, confesso que quando descobri a ignorância sobre o assunto fez com que minha dor fosse maior que a necessaria, senti grande descrédito por parte dos médicos em relação ao futuro do meu bebê, isso fez com que eu tivesse mais força para provar que eles estavam errados.
Infelizmente no meu oitavo mês de gestação perdi meu bebê, e mais uma vez senti o descaso por parte dos médicos, agiram como se já soubessem do desfecho da minha história, dando assim a eles a verdade absoluta, a palavra final.
Mesmo hoje não estando com meu bebê, faria tudo de novo, não acredito que um exame possa determinar e garantir o futura dessas crianças, deposito todos meus créditos nessas crianças, elas tem o direitos de serem estimuladas e lapidar suas potencialidades, como eu e como qualquer pessoa. Não compramos nossos filhos em prateleiras de supermercados.
[...] Leia mais: Cientistas criam teste de sangue que detecta Síndrome de Down – BBC Brasil.com -Repórter BBC Mais … [...]