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Como farsa

emoção, quando se repete, é como farsa
e isso é tão triste como uma coisa que não está à venda
mas se deseja, com insistência

(nem no balcão dos peixes
e naqueles olhos baços
já não reluz)

em algum outro lugar
está partindo do tempo
ela vai ancorar por aí

(mas sob outra pele
num gesto perpétuo
e inacessível)

por não ser possível pegá-la
pode-se abandonar o desejo
ou, de outro modo, negá-lo

olhos estrelados na alegria
marejados na tristeza
e por fim, então, apagados

a emoção é a melhor e a pior das drogas
seu imenso exército de escravos
tem por única intenção fugir à própria morte

Valor de mercado

a poesia quando é de valor, não tem valor de mercado
mesmo assim às vezes ela vai ao mercado
e no balcão dos peixes ela se perde do tempo olhando aqueles olhos

O dragão e o chacal

eu tomo conta é dos despojos
sabe: a verdade vem em pedaços
como cortes de carne
sangrando à toa e falecidos

2

sempre resolvo o que fazer
sem pensar muito
costumo decidir
só pelo faro

3

mas não sou fera
é fato
sou fino, fraco, flébil
mas fútil, não

4

meu olhar mortiço
traz a moeda
mortífera
que Caronte não suporta
sequer olhar

5

eu cuido muito que a mentira se estabeleça
entre dentes fracos e gastos
e morra bem longe dos meus braços
desprezível que ela é

(a mentira nunca é digna de comer
mas quando come
ela sempre arregaça as mangas)

6

não descanso de dia
nem de noite
durmo, mas com um olho só
quando acordo, já estou desperto

7

até que me aproxime
deixo a paisagem com os pássaros
e as coloridas borboletas
de amirá-la, com amor,
ela se torna tão bela
o que ela teme não é minha presença
mas os lugares que meus pés trazem

8

diante dos fortes
eu me entrego sem luta
mas à esgueira das guerras
prospero, pela vileza que resta

9

eu vivo na cidade e no deserto
devoro a todos, pelo bem ou pelo mal
nunca fui dragão, sou o chacal

22“Antes, eu posso lavar as mãos?”

Ele vai me dizendo que precisa de cooperação. Com o velho me olhando da porta, ele vai fazendo perguntas sem explicar direito o porquê. Mostrou o distintivo, mas diz que é da polícia técnica. Que está procurando Antonio e que ele pode estar numa enrascada. Foi a mãe dele que lhe disse quem eu era. O amigo de infância. O colega. Alguém que pode ajudar. Sua expressão está algo entre a prepotência e a fadiga. Vamos conversar, então.

Nestor não se mete em problemas, não cria problemas. Isso o pai pode garantir. Desde que a mãe morreu, Nestor cuida de si mesmo. Não descuida do que faz e o que faz, faz bem feito. “Já falei com o inspetor, ele esteve na escola. Já disse tudo que sei.”, ele senta-se numa das mesas da padaria, num dos poucos lugares onde é possível ver a janela do quarto de Antonio, quase em frente. O Magrelo tenta ser o mais objetivo que pode.

“O inspetor morreu, foi assassinado. Estou provisoriamente cuidando do caso, mas acho que tenho uma boa pista. Eu sou perito em tecnologia, não vou lhe interrogar, não sei fazer isso. Não sei interpretar a mentira nem revelar a verdade, mas vejo o que há dentro de cada bit. É o que devo fazer. É o que esperam que eu faça.” “Hã-ham?” “Seu pai vende analgésicos?”

Nestor vai até atrás do balcão, pega um envelope de papel prateado e o traz de volta à mesa, com um copo de água em uma das mãos. Ele ajusta os óculos sobre o nariz e volta a sentar. Olha para cima, como de hábito, e vê o que parece ser a silhueta do pai do amigo desaparecido, que some em seguida. “Você tem a chave de Morphopolis? Foi isso o que ele enviou, ontem, na mensagem truncada?”

“Quê?”

“Eu preciso disso. É para o seu bem.”

Nada mau para um aprendiz de policial. Nestor puxa do bolso das calças seu telefone e entrega para que o Magrelo examine. Isso dura poucos minutos. Nestor fica observando. Seu pai também fica observando, de longe, mas logo assume o balcão da padaria. Há clientes. O que o Magrelo vê no telefone pode ser o que está procurando ou não. Isso depende de Nestor ser mais sério ou correto do que fiel. É uma pena que o Magrelo não saiba avaliar os modos de uma pessoa.

Navegue pela sua cidade dos sonhos.

Dragão, 7

eu só gosto dos pensamentos que causam cócegas
os outros são esses monstros que há detrás das paredes
e têm unhas imensas

eu só gosto do que desconheço
ou onde possa rolar pelo chão
até descascar de novo

só gosto de meias-verdades
porque posso desvelar meias-mentiras
nem que seja sob minha própria tortura

tenho uma centena de planos
guardados
para queimar

eu só não gosto de esperar
que o tempo chegue
ou que seja a hora certa

eu quero tudo agora
ou simplesmente
ninguém descansará sob o meu urro

está tudo bem, mais uma vez
posso incendiar os céus
até que eles não se acabem mais

Silhueta de um par dançarinos de salão

Por Lucio Carvalho

Eu concordo com a questão de reconhecer as diferenças e entendo que esse é o princípio ético que tem servido de norte à educação inclusiva. É um princípio fundamental, que o Prof. Boaventura de Sousa Santos sintetizou perfeitamente há 10 anos aqui mesmo em Porto Alegre, no Fórum Social Mundial.

Entretanto, acho igualmente importante considerar que a educação – principalmente no caso da educação pública, onde a escola é muitas vezes o único espaço de desenvolvimento social das crianças (inclusive de alimentação, atenção psicológica, etc.) – tem por objetivo igualar e equiparar oportunidades. Então penso que o termo igualdade deve ser bem vindo à escola inclusiva, de alguma forma.

Às vezes tenho a impressão de que todo o discurso inclusivo está muito centrado na questão da ética da diferença, mas o trata sempre de forma particular e, embora seja muito relevante que cada um seja considerado em sua realidade, o objetivo da educação é um objetivo social, coletivo. Nesse aspecto, há muito a evoluir. Pelo menos, precisa-se de mais um ou de um novo passo, já que os de até agora só nos trouxeram até aqui.

De que vale fechar escolas e classes especiais e, todavia, manter alunos especiais, considerados sempre a parte, sem um projeto realmente coletivo, mútuo, de interferência e transformação? Além de mudá-los fisicamente de lugar, é preciso mudar a lógica de ocupação social, de hierarquias, de sentido, de coletividade. Alguns dirão que se trata de um processo. Que é preciso dar um passo e depois outro. Eu quero dizer que precisamos começar a caminhar e parar de mudar de lugar, porque isso pode dar a impressão de movimento, assim como o álcool, o LSD, mas a exclusão move-se rápido e já chegou à nova escola inclusiva também. Ela é camaleônica, é a própria cultura social que precisamos tirar para dançar, já que o baile continua.

Cada vez mais o que vemos é a educação inclusiva sendo tratada como um pacote de soluções, mas o que precisamos debater é se a educação inclusiva, enquanto projeto inovador, não deveria exatamente se diferenciar desse modelo empacotado, que não rompe com as estruturas sociais excludentes nem sequer as remodela ou problematiza.

No meu ponto de vista, isto está aquém inclusive das políticas de integração, em tese anteriores às políticas inclusivas. Prova disso é a crescente terceirização pedagógica da gestão pública educacional para ONGs, institutos e etc., principalmente em municípios. Sem falar de estados da federação, inclusive do mesmo partido do governo federal, que não têm sequer diretrizes nem políticas específicas para o seu âmbito de ação.

Já falei que meus dois filhos estudam na escola pública. O momento mais chocante que vivi nos últimos anos foi ter que responder, na entrevista de início de ano, se a merenda da escola (servida as 15 h) seria a sua primeira refeição do dia. É claro que nada comparável a ter de chegar às 15 h sem ter comido nada ainda.

Às vezes, quando vou buscá-lo na saída, vejo ele, sua deficiência estampada no rosto, um autêntico excluído no meio de tantos excluídos, alvos de um projeto educacional (seja federal, estadual ou municipal) que os capacitará para a subalternidade eterna, mas aptos a consumir também e, se isso significa inclusão, então deveríamos estar todos bem. Eu é que tenho mania de, como dizem os gaúchos, ficar vendo chifre em cavalo.

Por isso, em 2012, eu vou mudar de terminologias. Não quero mais incluir meu filho, que tem síndrome de Down. Não quero que ele seja dado como “aluno incluído”. Quero educá-lo excluído como ele é, como somos, ou como nos permitimos reconhecer. Mudar uma palavra por outra não mudará sua situação, nem a minha, nem a de ninguém. Devemos ter uma boa escola de excluídos, mas na qual eles sejam donos de sua própria voz, sujeitos da sua exclusão, dançarinos de outra dança, felizes e amigos porque igualados à maioria, no rés do chão, longe dos castelos onde ninguém é igual a ninguém.

Labuta

Esses que ainda não existem
acabaram de entrar na fila
num mundo que já explodira
: lhes falta átomo, plateia e batuta.
Mas eles não querem nem saber.

Dentre eles, a mais astuta
tem como sombra o alforje
do tempo, e nele descansam
lamentos, te-esconjuros, revoluções.

Por enquanto eles aprenderão
a tática das matilhas
até que o primeiro venha a descobrir a lua
e encampará todos os sonhos
numa matança fajuta.

Os vencidos voltarão à fila
já sem espanto, só com a fadiga.
Sem lacre, entregues à liberdade,
e a um tipo especial de silêncio que vociferam
como Geni, a puta.

Eles agora não erram muito
nem tentam muito,
são estudados e cada movimento
resta por estratégia, labuta.

Só de viver

foi com um passo e só
e ela caiu dentro de mim
toda, inteira, sem fim

por essas coisas
que aprendi tua voz
pequena flor, florzinha

vem me dizer mais uma vez
não há o que entender
a vida é só viver

é só de viver a vida
a vida é de viver e só
toda, inteira, sem fim

Chega o fim-de-ano e uma compulsão antiga, a do envio massivo de textos e mensagens de auto-ajuda, me fazem voltar a buscar na simplicidade de suas ideias o único sentido da vida, que sempre vem bem embalado nesses textos, prontos para o consumo. Com o reforço das redes sociais, ficou praticamente impossível resistir a eles. Então é melhor relaxar e deixar que comecem a desfilar diante dos olhos longas e sábias palavras de poetas antigos, frases rápidas e absolutas de poetas modernos, receitas de como buscar a felicidade e fórmulas comprovando a sua existência. E eu as vou devorando, convencido de que minha vida será modificada ao conhecê-las. Não posso nem irei perder nenhuma delas.

Não há nada mais legítimo, na vida, que procurar seu sentido, sua substância. É uma habilidade intrínseca do ser humano, o questionamento, e foi o que fez com que ele sempre andasse a buscar o que não tinha, ser o que não era, mudar o que não lhe satisfazia, e por aí vai. De certo modo é o que está a ser buscado ainda, em sondas que enviamos aos confins do nada, universo afora, e em imagens que flagramos do minúsculo invisível aos próprios sentidos. A impressão é de que a investigação é sempre melhor que o resultado. Ainda somos como os caçadores de Lascaux, absortos pela busca. Atentos a cada detalhe, mas com o foco fixo no que nos falta.

Uma das outras formas de ser atingido pela auto-ajuda, e em cheio, são as imagens. Alguns dizem que apenas uma delas vale por mil palavras, às vezes. Outras vezes as imagens nos deixam sem palavra alguma, como as crianças somalis, os animais que mimetizam o comportamento humano, as estatísticas da nossa ocupação no planeta e o saldo das diferenças entre os descendentes do tronco de Adão e Eva, as tão conclamadas diferenças. São imagens impressionantes, mas que nos incomodam bem pouco, porque se trata sempre de um real remoto, uma virtualidade serializada e tão presente quanto os anéis de Saturno. Na nossa vida, são espécies de exceção que compartilhamos sem parar, e nos enviamos a todos, assim como a todos nos estranhamos e reconhecemos, numa dinâmica que nos leva de roldão a algum lugar ou a lugar nenhum, ou todos ao mesmo lugar.

As grandes novidades do ano, a essa altura, já estão bem velhas. Ninguém mais lembra delas. São como tótens de ocasião, flagrados em alta definição. São imagens de um tsunami de fatos, onde o passado se fixa, mas que não se pode acessar a não ser por contemplação. São pessoas sem poros e paisagens sem brisa. Os escândalos foram escandalosamente escondidos sob as fitas de vermelho do Natal e o presente mais clamado, o intangível tempo, oferecemos em sacrifício a tudo do que não abdicamos: notícias, alôs, e-mails, acenos, afagos, auto-afagos, auto-ajuda. E então ei-la aqui, mais uma vez, a auto-ajuda e sua impossibilidade semântica.

Mesmo impossível, não há quem abdique definitivamente da auto-ajuda ou liberte-se sem cicatrizes do auto-engano (ou dos grandes engodos). Precisamos e cada vez mais de uma mensagem-expediente com o poder de produzir versões da realidade, desejos, interesses sociais e até ideais particulares. Somos esse eu constante e coletivo que balança na cauda longa dessa época horizontal, mas ainda habitada por mitos ou fantasmas que não calam-se, apesar do tempo e das novas novidades. A auto-ajuda é um remédio poderoso para a solidão desses tempos. Através dela, mantemos a ilusão da auto-suficiência e podemos até negligenciar o outro sem culpa, pois ela ensina que o eu é o bastante, mesmo que seja sempre preciso dizer isso a alguém. A auto-ajuda é o fim, sem perplexidade, da ajuda, do entender, da disponibilidade. Mas ainda há poucos que percebem que ela não é a solução nem o segredo, mas o próprio problema e o escracho da indiferença.

Enquanto sou avisado que uma nova mensagem está chegando, calculo onde e como ela irá me atingir. Se em culpas que não tenho, se no tempo que perdi por gostar de simplesmente sentir o vento em meu rosto, caminhando pelas ruas, com os demais, igual a eles. Já sei: essa mensagem vai me dizer que tudo é especial, mágico, nada é comezinho, inútil, em vão. Vai me dizer: seja você mesmo, mas eu não quero ser “mais” eu mesmo do que já sou. Tenho a vontade imediata de responder: não, não seja você mesmo. E já que a transmutação de corpos é inviável, vou insitir em tentar me colocar no lugar do outro ou, pelo menos, em não deixar de reconhecer sua identidade e trajetória, buscando outros pontos de vista, desacomodar-me das próprias crenças e do próprio conforto, levar-me pelo assombro e pela magia que há nos olhos dos outros e sua experiência.

Assim como eu não posso me auto-ajudar, mas posso pedir ajuda, também não irei ser mais eu mesmo (como se antes eu tivesse sido outro), minhas ideias serão apenas ideias entre ideias, meus sentimentos apenas um modo peculiar de perceber a vida (aos quais, por matutice, me reservo a exclusiva tutela), meus sonhos continuarão a ter o mesmo valor dos sonhos alheios, e serão ainda apenas um trecho de todos os sonhos do mundo. Enquanto não podemos sonhar (ou viver) juntos, precisamos mesmo de auto-ajuda. E muita. Mesmo que em mensagens destinadas ao mundo inteiro. Por isso, não abro mão de nenhuma delas. E vou até o fim.

Lá fora, pra dentro

Alvorecer em Bagé

o couro nas estacas
o frio, osso duro, o ouro puro

dentro, o escuro traz as suas vozes
ditando ordens ao dia, lá fora

agora vá, sol, e amanheça,
traz os cavalos, também

vamos,
que ainda é tarde

(eu nem conheço mais
minhas lembranças

mas sei que elas estão lá
mudando o que sou no presente)

o tempo é sempre esse
fiapo de lã preso ao cabelo, a germinar

a voz é sempre firme
ela precisa dominar o universo

e conduzir, de uma só vez,
os animais

mas o universo é duro também,
e encardido, igual as pedras do cerro

nós vamos chegando até ele
tão juntos e tão separados

lá fora estão as nossas palavras,
o riso que ainda faz eco

o suor derramado sobre a terra
sem rito nem tato

nós já chegamos, de volta
e eu tenho agora suas vidas como a minha própria vida

poderia ajudá-los com o frio, com o calor
um gole d’água, ou simplesmente ficar por perto

(é sempre de longe
que se pode ver o passado)

não há tempo que chegue, mas vamos,
o vento sempre me traz de volta pra dentro

2 pesos 2medidas - um jogo da velha vencido apesar das regras, sem completar-se a sequencia exigida

Por Lucio Carvalho *

Em cerimônia no Palácio do Planalto, no último dia 17, a presidente Dilma Rousseff anunciou aquela que é a primeira grande iniciativa de atenção à pessoa com deficiência em seu governo. O Plano Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência, batizado “Viver sem Limite”, destaca a necessidade de viabilizar a inclusão social das pessoas com deficiência em todo o país e prevê um investimento de cerca de 7,6 bilhões de reais até 2014, em áreas como acessibilidade arquitetônica e urbanística, saúde e educação, entre outras.

Na esteira do plano, o governo também lançou um conjunto de medidas visando sustentá-lo legalmente, entre as quais os Decretos 7.611 e 7.612. Este último diz respeito ao detalhamento do plano em si mesmo, enquanto o primeiro reorganiza os serviços da educação especial, complementares ou suplementares ao ensino regular, o assim chamado atendimento educacional especializado (AEE), e a específica distribuição de verbas do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB) destinadas a financiá-lo, nas diferentes modalidades de sua oferta.

Posicionando o Dec. 7.611 no marco legal

O decreto consolida a legislação anterior e confirma a Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, revigorando o conceito de dupla matrícula, presente desde 2007 através do Dec. 6.278, que restituiu às escolas especiais o direito de ofertar educação especial no âmbito da política governamental em vigor. Além disso, o Decreto também dispõe sobre a oferta de educação bilíngue para surdos e outros dispositivos de financiamento aos sistemas de ensino.

Do ponto de vista educacional, a dupla matrícula amplia as condições de oferta dos serviços de AEE pelas escolas especiais, agora novamente habilitadas a captar recursos do FUNDEB e a investir em qualificação, conforme os demais dispositivos do novo decreto. Já do ponto de vista político, o decreto pode ser interpretado como uma fonte de recuperação das escolas especiais, que na atual política haviam perdido a anterior preponderância no atendimento às pessoas com deficiência, uma vez que a adoção da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (CPCD) e sua incorporação ao texto constitucional, em 2009, obrigou definitivamente o país a implementar e investir na educação para pessoas com deficiência em ambientes inclusivos.

O Dec. 7.611 e a oferta de educação especial

O percurso recente da educação especial no Brasil está vinculado ao estrito conceito de inclusão educacional, que diz respeito à presença dos alunos com deficiência nas escolas regulares. Todo o investimento governamental dos últimos anos dirigiu-se, portanto, a programas destinados à qualificação docente, adaptações e investimentos que pudessem garantir o acesso e a permanência dos alunos nas escolas regulares, espaço preferencial da educação das pessoas com deficiência, de acordo com a Constituição Federal de 1988 e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB).

A opção pela nova política, regulamentada no Dec. 6.571 de 2008 e pavimentada pela Resolução 4, de 2009, do Conselho Nacional de Educação, não se deu entretanto sem uma ruptura. Trata-se, afinal, de partir de um modelo em vigência desde a década de 60, no qual escolas e classes especiais esboçavam um gesto tímido de integração à escola regular, para um outro no qual os estudantes passaram a conviver nos mesmos ambientes e a exigir uma nova organização escolar e também a ressignificação do fazer pedagógico.

Todo esse movimento foi impulsionado nos últimos quatro anos, brevidade que explica, pelo menos em parte, as inúmeras dificuldades que ainda permeiam a escola regular, na qual a praxis educacional está ainda especialmente orientada à competitividade e ao mérito distintivo, política também fomentada pelo governo federal, que a partir de 2011 envida esforços e destina recursos ao ensino técnico e profissionalizante.

A retomada das escolas especiais

A retomada que as escolas especiais obtém com o decreto recém editado acontece sob a mesma gestão que estava à frente do Ministério da Educação há quatro anos, com o Ministro Fernando Haddad. Desde lá, as políticas públicas destinadas à educação têm tido como referência a perspectiva da educação inclusiva, recolocada no centro do debate educacional incorporando uma série de novos conceitos e valores, tais como o mútuo reconhecimento e o amplo respeito à diversidade individual das pessoas. É portanto no foco da nova política de educação especial inclusiva que o Decreto 7.611 se inscreve, modificando alguns de seus detalhes, mas não alterando sua essência, até porque deve obedecer a precedência legal e temporal de acordo com o previsto na CPCD, razão pela qual traz embutidos em seu texto vícios de inconstitucionalidade.

Uma vantagem possível para as escolas especiais de agora em diante, em relação a oferta do AEE nas próprias escolas, é o número reduzido de alunos e a possibilidade reconquistada de outras fontes de financiamento exclusivas às escolas, como convênios autônomos com o poder público nas esferas estadual e municipal, entre outros. A oferta e financiamento de seus serviços, entretanto, continua dependente da dupla matrícula, como assevera o Art. 9-A do Dec. 6.253 de 2007, que regulamenta o FUNDEB, modificado por este novo Dec. 7.611 e circunscrita ao AEE, para alunos que continuam obrigados a frequentar a escola regular para usufruir do direito à dupla matrícula. Frise-se que as modificações impostas pelo novo decreto dizem respeito exclusivamente ao financiamento a alunos matriculados na escola regular e na escola especial concomitantemente, caracterizada aí a dupla matrícula, mote principal do decreto. Fora isso, a escola especial não adquire legalmente qualquer efeito substitutivo. O decreto não se presta a essa finalidade, mas sim à orientação de diretrizes dos serviços do AEE, sua oferta pelas escolas especiais, e ao financiamento público.

Financiamento público, para a educação inclusiva

De outra parte, a desvantagem da oferta do AEE na escola pública é agravada pelas dificuldades de orçamento e recursos ordinários. Por isso, uma verdadeira e qualificada oferta de educação inclusiva compete ainda na ampliação da destinação de recursos orçamentários, como pretende a campanha pelos 10% do PIB na educação, na qualificação e valorização docente, no cumprimento imediato e integral do piso salarial dos professores, na concretização de uma educação em direitos humanos orientada ao fim do preconceito, homofobia, racismo e intolerância no ambiente escolar, apontados em inúmeras pesquisas realizadas recentemente. Estas são necessidades prementes e complementares para uma educação pública, inclusiva, universal e de qualidade para todos.

Além disso, é urgente rever as necessidades de um universo escolar em constante transformação e a crescente deturpação do interesse público e vulnerabilização da educação pública. Além das pessoas com deficiência, aquelas que podem portar um diagnóstico, há uma imensa população de alunos apresentando “necessidades educacioanais especiais”, como os casos envolvendo transtornos de atenção, hiperatividade, depressão, psicoses e aqueles que simplesmente têm imensas dificuldades porque imersos na pobreza e em condições desumanas de sobrevivência, como desnutrição e outras situações de vulnerabilidade social.

Para esta clientela, “preferencial” da escola pública, não há escola especial que abrigue nem escola privada que a deixe passar perto da porta, mas a verdadeira educação inclusiva deve estar apta a recebê-la e possibilitar sua inclusão social, porque se trata de seus legítimos interessados. A escola que estiver apta a receber e educar toda essa clientela, em igualdade de condições e proporcionar seu desenvolvimento social e humano, é que é a digna de todo o investimento público possível. Nesse sentido, outra medida do plano “Viver sem Limite”, o BPC na Escola, que monitora os estudantes de famílias que recebem o Benefício de Prestação Continuada oferecido pelo Ministério do Desenvolvimento e Combate à Fome às famílias de pessoas com deficiência carentes, para garantir sua escolarização, vem somar-se à perspectiva da educação inclusiva.

O que será possível verificar, a partir da vigência do Dec. 6.711 e da injeção de novos recursos na escola especial, é a sua capacidade de encontrar as necessidades presentes na sociedade contemporânea e complementar, através da oferta de seus serviços e acúmulo, lacunas na educação dos alunos com deficiência na rede pública. Por isso, trata-se de uma oferta “complementar”, porque o dever de oferecer e manter a educação pública e universal continua sendo exclusividade do Estado.

* Coordenador-Geral da revista digital Inclusive – inclusão e cidadania (www.inclusive.org.br)

Fonte: Inclusive – inclusão e cidadania

21E quem não pensa sempre no pior? Não se trata de culpa, mas de ser realista. Encarar os fatos é preciso. A vida não é sempre como se quer, mas como pode ser. Lá vem ele, o ônibus. E dentro dele, ela.

Maria João foi a última a descer do ônibus. Ela espera que descarreguem as malas até conseguir pegar a sua, em uma fila de muitas pessoas. O calor é intenso e faz com que os mais velhos comecem a passar mal. Maria João está ajudando uma velhinha com as malas quando Vitória a enxerga de longe, ao subir à plataforma de desembarque, lotado de gente. Enquanto ela se aproxima, a multidão às vezes apaga e às vezes está mostrando sua figura. Franzina, desde pequenina.

“Deixe eu lhe abraçar, depois me conte tudo.”

A irmã carrega a sua mala e a leva pelo braço, olhando para os lados. “Esse lugar não mudou nada. Onde fica mesmo o ponto de táxi?”

Agora tenho de contar meu fracasso. Não consegui proteger meu filho, não consigo cuidar sequer de minha vida, sou um frangalho ambulante. Olhe para os meus cabelos… O que, afinal, ela quer que eu conte? Já vai começar a tortura?

“E o gênio, está em casa?” “Táxi, táxi!! Pare, seu maldito!”

Navegue pela sua cidade dos sonhos.

Visagens

ela me disse que via coisas
fantasmas que não eram de habitar as casas
lugares sem sombra ou sol esparramado
e as palavras que habitam a tristeza e os sorrisos

eu nem sabia que ela via essas coisas
mas ela dizia que via também o que elas não eram

e por dentro dos seus olhos foi que eu descobri a verdade

2

a única verdade
nunca é uma só

é preciso primeiro fazê-la
cortar seus tijolos
destruir as paredes do assombro
e depois habitá-la

como o único lugar possível

3

a verdade é um lugar
como qualquer outro
mas sem encontrar seu caminho
não se pode chegar lá
ou sequer lhe alcançar

4

nem sempre está muito quente ou muito frio
ou sempre completo ou vazio
sem ou com
ou sim ou não

5

ela me disse que é feliz porque pode saber

Por Lucio Carvalho

Publicado originalmente na Revista Música Brasileira

Assim como há música que são como calçadas, espalhadas Brasil adentro, onde se encontra de tudo – e isso é uma benção de poucos lugares – há músicas que parecem que encontramos nas ruas, como um vizinho antigo, uma fachada intacta ou lugares que mudaram, aqueles que nos últimos tempos puderam mudar pra melhor.

Assim é o radinho da Simone, que encontrei quase sem querer pipocando de lá pra cá, nessa chapa quente que é a internet. A Simone de quem falo é a Simone Guimarães, a cantora que tem a voz do Brasil de dentro por dentro de si e que, quando bota isso pra fora, faz a gente sair procurando onde está o Brasil dentro de nós. E ela nos diz (sem mesmo saber) que ele está onde esteve sempre esteve, lá, ali, aqui, um pouco aos nossos pés, um pouco oculto e inacessível, mas ainda assim inteiramente nosso.

No radinho da Simone há coisas gravadas há bastante tempo, desde os tempos miraculosos de Piracema até os trabalhos mais recentes, não menos miraculosos, de Casa de Oceano ou Flor de Pão, registrados pela Biscoito Fino. Há também coisas pra descobrir: letras antigas de um Cacaso, canções plantadas no leito de um rio, na borda de uma janela em flor ou noutras jóias e pepitas desse pequeno grande tesouro esperando ser descoberto…

Sempre resta uma dúvida ao escutar a Simone: é preciso decidir rapidamente se as suas escolhas foram feitas pensando em sua voz ou se sua voz é que foi forjada por suas escolhas. Como a resposta não está escrita em lugar nenhum, o jeito é botar o radinho pra tocar mais uma vez. E tentar decidir jamais.
Com licença, por obséquio, que eu preciso ouvir esse radinho aqui http://www.reverbnation.com/simoneguimaraes um pouco mais.

20 – Da capo

2“Hoje cedo consegui localizar o sinal e a posição do telefone do seu filho.” Ok, o sinal vinha de Quito, no Equador, mas eu não preciso dizer isso. O que ela quer saber é se ele está vivo e longe de perigo. Vivo, sim. Longe de perigo? Como saber?… “Bom, eu captei seu sinal ontem à tarde, numa tentativa frustrada de conexão. Mas tenho certeza que era ele, porque o acesso estava criptografado no modelo que ele mesmo criou.” Claro, pela expressão e fisionomia, é óbvio que não estão entendendo o que estou dizendo. Vamos lá, então. Do começo.

Maria João insistiu que o Magrelo explicasse tudo. Tintim por tintim. Então ele foi dizendo tudo, que o inspetor achava que poderia ter sido um sequestro, que não acreditava nas suas hipóteses, de que o filho deles pudesse estar envolvido num grupo de terrorismo digital. Não, ele não era um terrorista. Nada disso, claro que não. Ele deveria ter sido seduzido por um grupo desses. Há muitos por aí. Isso é cada vez mais comum entre adolescentes. Tudo acontece através de videogames inocentes tipo os que ele próprio, o Magrelo, costuma jogar. Ele até já havia tentado se aproximar de muitos destes grupos, mas muito rapidamente descobrem sua ligação com a polícia e excluem sua id (algo como um código de autenticação intransferível). É uma tecnologia imune a fraudes, pelo que se sabe. A mãe sabe que o filho costumava jogar muito no computador, mas não se importavam com isso, nem ela nem o pai. Antonio não era um filho que desse trabalho. Tirava boas notas no colégio, tinha amigos e parece que até uma namoradinha. Mas andava calado demais nos últimos tempos e, ao mesmo tempo, aparentemente muito feliz.

“Eu não sei com qual grupo ele se uniu, mas sei que fez isso, que não está sozinho.” Torço que sejam aqueles que querem apenas brincar de “ter emoções”, mas não poso dar certeza de nada. “Mas por quê? Com que objetivos?”, me pergunta a mais nova delas, a tia. “É difícil dizer, mas ele sabe o que está fazendo, ele não está inocente nisso e não quer ser encontrado. Isso até pode começar como um jogo, uma brincadeira, mas lá pelas tantas há uma opção a fazer.” Enquanto elas entreolham-se, incrédulas, eu peço um copo de água, até dar um jeito de encontrar o nome do destinatário de sua conexão. “Nestor. Aqui está. Conhecem algum Nestor?” A mãe responde que Nestor é o seu melhor amigo. Amigos desde a infância. Estudam na mesma escola. Mora do outro lado da rua. Bom, preciso saber o quanto sabe esse Nestor. A mãe vai até a janela e aponta a padaria quase de fronte ao prédio. “É ali. Ele é o filho do padeiro.”

Desde a manhã o Magrelo sente a cabeça latejar. Claro, indo dormir pela madrugada e sendo acordado pela notícia da morte do inspetor, ele não chegou a dormir mais que três horas. Sua vontade é desabar como o pai do menino, no primeiro lugar disponível, mas não será o sono que irá fazê-lo parar de jogar.

“Alguém tem um analgésico?” Eu preciso sair daqui. E rápido.

Navegue pela sua cidade dos sonhos.

O estorvo indígena

Os últimos charruas levados a Europa como exibição após extermínio no Uruguai

Por Lucio Carvalho *

Passados 511 anos do descobrimento, a população indígena brasileira mantém-se como um dos grandes estorvos aos projetos de civilização nacional e bem-viver da sociedade. Essa foi, provavelmente, a mensagem transmitida aos bandeirantes no passado, ao ponto de torná-los mais célebres quanto maior fosse o número de presas abatidas. O convite, na época, também falava em patacas de ouro e lotes de sesmaria.

Hoje, o discurso do estorvo indígena renova-se vigorosamente sob o apelo irresistível do progresso e do seu aparente deslugar no mundo contemporâneo. Mais uma vez as patacas de ouro tilintam, o clamor de um progresso que nunca veio ergue-se derradeiramente aqui e ali, lotes de terra demarcada ou empacada na burocracia são griladas e o saldo de aniquilamento moral de toda a sociedade sobrepõe-se ao incrível e incessante morticínio de lideranças, de etnias de todo o Brasil.

A alegação de incompatibilidade do modo de vida indígena tradicional com a vida urbana tem sido ao longo da história do Brasil um marco de distinção entre o projeto de nação que vem se desenrolando através dos sucessivos regimes e governos, no qual aparentemente o indígena só teve lugar na colonização, em sua expropriação territorial e subalternização cultural. Ainda hoje há quem defenda que o legado indígena tenha importância apenas relativa na construção da identidade nacional. Um esforço no qual sua relevância é reduzida a um tipo de herança dadivosa, assim como deveria ser o destino dos povos que vivem ainda hoje e, principalmente, o que restou de seus territórios. Essa incompatibilidade tem sido a tônica das interpretações acerca de todos os fatos que cercam as populações indígenas, por mais díspares que elas possam ser.

Se há indígenas vivendo em acampamentos de beira de estrada e seus filhos estão morrendo por falta de assistência a saúde, a culpa é da incompatibilidade de seu modo de vida em relação ao sistema público de saúde, ainda que o serviço mais próximo situe-se a léguas de onde vivam.

Caso um cacique seja assassinado em uma fortuita emboscada, isso se deve a sua insistência em permanecer na casa de seus antepassados, afinal ele deveria mesmo era estar na beira da estrada, mesmo que ali seus filhos tivessem piores condições de saúde.

Se um indígena sair da aldeia, enfrentar as barreiras socioculturais de uma sociedade que não o quer e chegar a estudar e formar-se, como vem acontecendo, isso certamente será dado como comprovação de que o modo de vida original de seus familiares é insuficiente do ponto de vista da sobrevivência e até mesmo da cultura.

Se uma floresta for submersa e solapada em sua biodiversidade, base da sustentação de famílias e aldeias inteiras, os culpados são estas pessoas estorvando projetos que negam inclusive o seu direito de ir e vir, a não ser que desenvolvam a milagrosa capacidade de andar sobre a água ou viver sob ela. Para estes também haverá a beira das estradas, é o que está reiterado na racionalidade destes tempos e deste país, há muito tempo já.

Por mais que a razoabilidade clame por atenção pública e policial à violência e ao morticínio que vem se praticando em todas as regiões brasileiras contra as populações indígenas, pouquíssimos são os que dão atenção a esse silencioso massacre. Na mídia, na maioria das vezes são descritos tais como fatos havidos com estrangeiros inconvenientes, não fossem os mais brasileiros dentre todos e os mais marginalizados dentre os marginalizados.

Com o governo federal atuando como desarticulador de políticas públicas e agente-mór na vulnerabilização dos direitos constitucionais, os indígenas cada vez mais contam consigo mesmos, é o que fica comprovado no manifesto lançado no último dia 9 por dezenas de organizações dos povos indígenas, divulgado pelo incansável CIMI – Conselho Indigenista Missionário (http://www.cimi.org.br/site/pt-br/?system=news&conteudo_id=5931&action=read).

O tempo passa e mais uma vez são reeditadas as entradas e bandeiras e, como lá, os interesses nacionais são invocados como rito de exclusão. Mas parece que nunca uma limpeza de terreno foi tão menosprezada pelos veículos de informação, agentes públicos e autoridades. Só pode ser porque os fatos são, mais uma vez, totalmente incompatíveis com os discursos.

* Coordenador da revista digital Inclusive: inclusão e cidadania (www.inclusive.org.br) e autor de Morphopolis (www.morphopolis.wordpress.com).

1Na minha vi9da tenho aprendido muitas coisas que não me servem pra nada. A vida inteira tem sido assim. Sou vítima de um engano e de um engodo. Falo da minha origem e da minha educação. Pelo menos a maior parte dela. Meu pai e minha mãe. Os dois são crianças que esperam que eu cresça de uma vez e possa vir a cuidá-los. Eu não trocaria de vida, mas preciso que me escutem, sem julgamentos ou lições. Um pouco apenas, de vez em quando, me bastaria. Só que pra isso, preciso sumir um pouco. Por isso embarquei nessa viagem. Por isso estou aqui. Mas, por melhor que tudo isso pareça, no fundo eu também espero que isso tenha um fim.

“Quanto falta?”, pergunto a Blinker a minha frente, que é como posso lhe ver, apesar de estar bem ao meu lado. “Quase nada. Agora ela vai abrir o jogo e nós entramos.”

Como ele disse, ali está o cenário. A cidade é perfeita. Funciona nos mínimos detalhes. Prédios, lugares. Ele ainda está montando a cidade e por enquanto não há vida ali, a não ser árvores e animais de estimação. Eles precisam passar despercebidos e ver o que há do outro lado. Mas, como é uma simulação e Sphinx é quem está dirigindo a cena, ela vai achar a todos, não há dúvidas sobre isso. Na verdade, já achou, mas deixa que todos ocupem seus lugares e cumpram todos os passos. Amanhã, entretanto, ela não estará lá.

“Delest, você já copiou a chave?”, Blinker pergunta. “Esqueceu que eu só estou aqui porque não preciso copiar nada?”, respondeu. “Vamos então”, prossegue Blinker. Antonio demora-se um pouco observando o lugar, registrando os detalhes modificados e vê todos sumirem porta adentro. Por fim, ele vai junto e lacra a cidade, deixando-a como sempre esteve.

Navegue pela sua cidade dos sonhos.

18 – Novembro

18Como acontecem os problemas das pessoas? Um dia você sai de casa e a rua não está mais lá, não há mais aonde ir porque os lugares existem apenas quando se está dentro deles. É preciso colocar um pé sobre ele ou apontá-lo com o dedo. Antes disso, é apenas uma abstração tão remota quanto a existência de Netuno. Problemas são assim também. São lugares impondo-se uns aos outros. Não é preciso ter feito nada para que eles se coloquem. Basta existir.

Eu só passei a pensar na morte por causa do medo. Acho que é assim com todo o mundo. A gente vai vivendo com a onipotência dos semideuses até que ela vem e lanha a sua face. Mas não tenho medo da minha morte e agora, sabendo que Antonio está bem, mas noutro lugar, posso até mesmo desmaiar.

O filho sumido, o marido desmaiado e a campainha tocando. Vitória quer sentar e chorar, mas não pode: a irmã não deixará. Ela descerá a escada para abrir a porta. É a polícia, mais uma vez. Dessa vez o rapaz alto de óculos está sozinho, mas é a ele mesmo a quem suplica por ajuda. Enquanto ele sobe correndo, ela ainda olha para a rua. O movimento dos caminhões e dos pedreiros da construção em frente ao prédio cessou para a hora do almoço. Os homens estão na sombra, mas é só por um momento. O calor veio com tudo. Novembro está chegando.

“Acho que bateu a cabeça… Não será melhor levá-lo a um hospital?”, Maria João tem a cabeça de José Francisco no colo e faz a pergunta ao rapazote, o Magrelo, que está teclando seu telefone. Aos poucos, José Francisco abre os olhos. Vitória está em pé, bem a sua frente. Ele olha os três, mas ainda não tem certeza de que deveria estar ali. “Eu preciso dormir. Uma horinha só.” E resolveu desabar no lugar mais próximo, a cama do próprio Antonio. A cabeça parecia como um sino sem badalo. Tudo bem com Antonio. Ele só precisava dormir.

“Vamos deixá-lo descansar. Venham comigo, eu preciso lhes contar o que descobri.” Onde está, onde está? Por isso que eu odeio telefones. Tenho certeza que está aqui. Ah! Aqui! “Pode abrir a janela, para entrar mais luz?”

Clique e navegue pela sua cidade dos sonhos.

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