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Contam que o Sakiamuni tinha grande amor pelos animais. Que os elefantes se enfileiravam para o levar nas costas. Que as formigas disputavam para limpar o terreno de todo obstáculo diante de si, até se prenderem nas teias ímpares que as aranhas teciam para que ele, nelas, pousasse os pés. Antes mesmo de entender a necessidade da compaixão, o buda se deitava na relva para brincar com o destino e com o tempo, seus dois gatos, livre de qualquer ambição e com um sorriso entre os lábios que poderia suspender até mesmo o sol no horizonte ou as intenções de Mara. Ao contrário de seus seguidores, o Sakiamuni nunca meditou em silêncio. Dentro de si, uma grande gargalhada de felicidade vazava por seus poros numa miríade de borboletas que cultivava sem saber e que tinham, cada uma, um nome diferente para o amor. Sua grande lição, até hoje mal compreendida, insiste que se procure sempre a fonte daquele riso, extirpada pelo uso danoso da razão. Algumas pessoas, com olhos de buda, conseguem isso com uma facilidade que costuma espantar aqueles que andam por aí caçando borboletas.

Visagens, 4

Ela me disse que pergunta
às vezes aos objetos:
sua matéria turva
se faz de carne e osso?

Como saber se as perguntas
não nascem fadadas a criar, sempre,
novas perguntas?

E se as escrevêssemos
então numa língua morta?
Ou as jogássemos mar adentro
numa garrafa, sem endereço?

E se fôssemos apenas
o tempo trafegando em nossas células,
criando pensamentos, números e ruidos
como uma cidade inteira?

Ela me disse que para ouvir
é preciso haver
palavras por dentro.
Que as palavras costumam
dar-se as mãos e,
quando tudo falta,
elas sabem o que fazer.

Cada um no seu

A vida não é mesmo cada um no seu quadradinho?

Reticente

Conversão proibida

33 – Blecaute

33Ótima hora pra faltar luz. Eu poderia parar com isso, sabe?, e começar a viver uma vida, uma vida de verdade. Mas antes eu preciso que ele saiba. Que ele saiba o que posso fazer. Não sou quem você pensava, eu diria. Não faço isso por você, mas também por você. Todo o seu dinheiro, todo o seu poder, todo o seu desplante, seu desamor calculista. Abra essa porta agora e mande Delest aqui pra dentro, Blinker. A hora já chegou. Olhem pra cima, garotos.

Sphinx, ou seja lá quem vive sob esse nome, larga o computador e vai até a janela. Por um instante ela olha o horizonte, onde o rio se deita e, abaixo, o estacionamento e as garagens do subsolo. Os geradores foram ativados e a luz pisca rapidamente, alternada pela mudança de corrente. Ela volta ao computador deslizando em curva pela sinuosidade da mesa.

Já acabou. Você não viu? Mas esperava o quê? Uma aula? Um vídeo? Quanta obviedade reduzir a ação planejada de um hacker a um jogo de cena. Você não viu porque não entendeu. É isso. Acostume-se com a ideia de não ver e ter de crer. Em Morphopolis é assim que funciona. O que importa saber é que naqueles cinco minutos ou menos que sucederam o instante em que faltou energia elétrica em toda a cidade, exceto nos dispositivos móveis com energia própria, o Magrelo conseguiu o que queria, uma chave para entrar no jogo onde ele supunha encontrar Antonio, sua localização exata. Antonio também conseguiu o que queria.

“Veja Blinker, Sphinx achou alguém que não deveria estar aqui. Alguém que está me procurando.” Blinker alternou de tela e viu a cópia de Delest perambulando sem saber o que fazer, buscando uma porta para sair.

“Você já não guardou tudo o que precisava, por que não vai lá falar com ele?”

Antonio está olhando a figura tridimensional com o uso de zoom. A tela do computador mostra sua cabeça. O cabelo daquele clone está melhor aparado que o dele próprio. Sem levantar os olhos da tela, responde: “Na verdade, não. Vou dar a ele um outro tipo de problema. Que tal a polícia perseguir a própria polícia? Ele não quer saber como eu me sinto? Ótimo, então.”

Delest, é bom que você saiba o que está fazendo. Você me diverte mesmo, sabia? Vou botar um pouco de chuva no cenário, pra anoitecer mais rápido.

Quantas contas nos números perderem de ser iguais às melodias que calam reticentes nas teclas inertes do piano?

Ninguém quer saber porque estamos satisfeitos sem saber de nada.

A célula e, dentro dela, o ribossomo. E dentro dele, o átomo. E por aí vai, até o fim.

À deriva do vento, a folha repousa na sua tolice de voar.

A vida da folha e a clorofila que se extingue dia a dia, secando a si mesma, empalidecendo até quebrar sob o peso de um pé ou de uma roda qualquer.

Quantas folhas nas árvores terão apenas esse destino de cooperar involuntariamente com a árvore, para depois morrer?

E tudo isso porque ninguém sabe que a luz é sua propriedade privada.

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