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Eólicas, 2

Animação com 4 imagens alterandas de estradas bloqueadas por árvores tombadas Você pode ouvir

o vento dizendo

fique onde está?

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  • http://www.viapolitica.com.br/comunidade_view.php?id_comunidade=130

Capa do livro "Tudo Bem Ser Diferente", de Todd Parr.

A divulgação de campanha promovida pela ONU em parceria com setores da sociedade civil, lançada no dia 16 de novembro, com o título “Igual a você” foi proposta para falar à sociedade de igualdade e direitos humanos. De discriminação e preconceitos. A iniciativa, proposta pela UNAIDS (Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids), ACNUR (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados), UNIFEM Brasil e Cone Sul (Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher), UNESCO no Brasil (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), com apoio do UNIC Rio (Centro de Informação das Nações Unidas no Brasil) chega no fim de ano e depois de um ano em que se divulgou amplamente à sociedade que os índices de preconceito na escola chegam a números alarmantes, confirmando nossa era como a era do bullying e onde todas as tentativas de combater a intolerância, qualquer que seja ela, devem ganhar força na vida prática e presença significativa na mídia.

Os índices de que falo referem-se à pesquisa encomendada pelo INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) à FIPE/USP (Fundação Instituto Pesquisas Econômicas) , intitulada “Preconceito e Discriminação no Ambiente Escolar” na qual foram divulgados percentuais de preconceito que ultrapassariam os 99%, dentro das comunidades escolares de todo o Brasil. Em que pese estes dados referirem-se a grupos heterogêneos, muitos destes grupos não estão representados ou mesmo sugeridos na campanha proposta pelos organismos das Nações Unidas. É o caso das pessoas com deficiência que, a partir deste ano, com a regulamentação da política de educação especial na perspectiva inclusiva, passam a ingressar de modo mais efetivo nas escola regulares, no que seria muito importante que fossem consideradas como alvos do preconceito, fato que pesquisas como a da FIPE comprovam e que muitas famílias Brasil afora sentem na própria pele.

Além das pessoas com deficiência, não seria difícil imaginar outros grupos excluídos deixados de fora também da campanha. Os indígenas, que lutam pelo respeito e pelo direito a sua história e encontram falta de lobby no Congresso para levar adiante suas demandas centenares, ou milenares. Os idosos, que precisam enfrentar o governo e a oposição ao mesmo tempo para efetivar seu direito à aposentadoria digna. As crianças, que são vitrine preferencial de grande parte da ação social praticada no Brasil mas que são conduzidas cada vez mais sem pudor ao mundo do consumo e da precocidade. Os ciganos não poderiam ficar de fora desta lista. Os migrantes. Os presidiários. Os pobres. Além destes, os negros, as mulheres, gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais que já participam do lançamento desta campanha. Mas ninguém deveria ficar de fora. Talvez, unindo a todos, fosse enfim evidente que os de fora possam ser até mais que os de dentro.

Mas na exclusão social não cabe um ranking, como tantos que somos levados a conhecer e são divulgados com destaque em portais de conteúdo e veículos informativos. Seria um desejo lúgubre o de dar a ver uma disputa deste tipo, embora até mesmo através da pesquisa da FIPE seja possível antever alguns dados indicativos. O que não podemos aceitar é que, ao propor-se a defesa e promoção dos direitos humanos, a exclusão também seja praticada. Se os organismos das Nações Unidas perceberem a necessidade de retratar a sociedade em seu mais amplo e fiel recorte e as próximas campanhas considerarem a diversidade humana em sua maior dimensão possível então finalmente estaremos diante da lição que o recém falecido antropólogo francês Claude Lévi-Strauss nos deixou a convite da UNESCO em fins da II Guerra Mundial: a de que não há hierarquia na diversidade e representá-la só faz sentido se por inteiro.

Saúva

saúva
orbita em torno da seiva
e suga
como da fruta o suco
até secar
a sede
que há no centro
da uva

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Muitos conceitos costumam habitar temporariamente a mentalidade da sociedade e das pessoas. Assim foi que a sustentabilidade passou a significar menos uma postura ético-ambiental e mais um termo do arcabouço aparentemente infindável do discurso político. Participação popular, democracia participativa são termos muito empregados por pessoas que são profissionais em representar os demais. Controle público já se pode ouvir da voz eletrônica de um 0800 de uma repartição pública. Sem falar no paradigma que, também por sua origem grega, impressiona, mesmo quando não há nada perto de um paradigma em questão.

Com a inclusão não haveria de ser diferente. A inclusão é uma palavra mágica que deveria recolocar o sujeito imediatamente numa condição de vida ideal, imaginada normalmente por um terceiro. Além disso, tem a vantagem de casar muito bem com outro termo: a transversalidade. Então temos que a inclusão é transversal, ou seja, é aplicável a qualquer segmento social, grupo humano ou temática. A crença de que a inclusão fica nisso é o que torna o conceito suscetível a mal-entendidos muitas vezes criados intencionalmente. Mas a inclusão é a condição da ausência, mais que da presença. Seu foco não é o sujeito e suas particularidades, mas o ethos e suas complexidades. Muito da dificuldade em desfazer a crença comum de que a luta pela inclusão seja meramente uma tentativa de reconciliação social se deve ao fato de que também muitas vezes se faz uma relação apressada com outro conceito que também ganha eco em proporções e direções geométricas: a reparação.

A reparação é possível e cabível quando aqueles a serem reparados tem em consenso que ela por si só é condição si ne qua non de resolução de um conflito. É como um passo sem o qual não é possível avançar. A noção de reparação não tem muita semelhança com a inclusão pois aqui não há uma espécie de dívida histórica, a inclusão é uma necessária interlocução nas democracias contemporâneas porque se trata da ocupação de um vazio histórico, no qual a invisibilidade é um tipo de violência pactuada por toda a sociedade. A inclusão não existe sem o seu oposto: a exclusão. E todos os processos em que se coloca a perspectiva de incluir sujeitos é porque estes mesmo sujeitos se encontram de uma forma ou de outra alijados de seus direitos fundamentais e de qualquer oportunidade social.

Quando se fala em incluir um aluno numa escola, não se fala somente em seu direito a pertencer, a ocupar um espaço social; mas, sobretudo, em destituir a escola de sua cultura excludente, onde cabem uns e não cabem outros. Quando se fala em incluir uma pessoa no mercado de trabalho, não se está falando apenas do seu direito ao acesso ao autosustento, mas na transformação do mercado num espelho de toda a sociedade, e não apenas dos privilegiados que criam o seu ordenamento. Quando se fala em inclusão, não se fala apenas por pregação da diversidade ou pela afirmação da igualdade de direitos e oportunidades, mas se admite que o estado de direito e a organização social competem e organizam uma sociedade essencialmente desigual e heterogênea. O que se busca com a inclusão é a construção de uma sociedade mais igual, que respeite mais as diferenças entre os grupos e que providencie direitos comuns aos cidadãos e seu acesso a estes direitos.

Muitas vezes será impossível avançar nesse sentido sem que se desarticule o discurso da exclusividade, do preferencial, da proteção e até mesmo da reparação. Talvez aqui estejamos falando de um paradigma, de uma situação formalmente assumida pela sociedade. Bem como pensava Thomas Khun, não há mesmo meio de suplantar um modelo de organização sem que suas bases sejam desestruturadas, desconstituídas. A sociedade brasileira ganhará muito se conceitos como sustentabilidade, participação popular, controle público, inclusão e estado de direito deixarem de ser ameaçados por discursos vazios e eventuais. Se forem incorporados como valores “da” sociedade e não conceitos com finalidade específica. Estes são termos que precisam ser “incluídos” em definitivo em nossa sociedade para que possamos começar a construir mais realidades e menos conceitos. Mais dignidade para a vida de todos e menos discurso. Para que possamos construir de uma vez um novo tempo a partir de agora.

Duerme, negrita

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http://www.brasildefato.com.br/v01/agencia/analise/duerme-negrita

http://www.agenciachasque.com.br/ler02.php?idsecao=79552ecf412cd8ca6fd2202ecb584faf&&idtitulo=447c4ac175d2a7b47f744147e2f5ece4

http://www.cebsuai.org/content/view/2326/36/

http://psolsp.org.br/?p=3008

23932283


Na história há uma América Latina antes de Colombo e depois dele. Antes de Bolivar e depois de Bolivar. Antes de Guevara e depois de que “El León” partió a los cumbres. Muitos outros personagens dividiram, com maior ou menor sombra, a história do continente entre o tempo anterior, seu próprio tempo e o tempo posterior a sua presença. Na minha vida, assim como está prestes a perceber também grande parte do continente americano, foi “La Negra” quem separou o tempo em que apenas imaginávamos a cultura que habita nossa geografia e no que a percebemos em sua maior expressão, sensibilidade e força.

Força – o fuerza! – é o que gostaria de dizer-lhe ao pé do ouvido neste momento em que leio as notícias sobre seu momento derradeiro. Força foi o recado que ouvi desde quando meus irmãos mais velhos trouxeram para dentro de nossa casa, ainda na década de 70, aqueles álbuns onde vinham surrados os discos de vinil, hoje praticamente extintos, libertos de qualquer substrato físico (não é assim o mp3?). Naquela época, quando os discos eram usados como bíblias de pessoas muito crentes, eu achava que o recado de Mercedes Sosa era destinado a mim e que a mim competia compreender o seu mosaico de zambas (e que belas zambas sabem criar os irmãos argentinos), milongas, chacareras, tangos, vidalas e tonadas. Hoje percebo que, na verdade, tratava-se de um recado enviado a milhões de pessoas que procuravam viver suas vidas num dos períodos mais cruciais da história latino-americana.

Engana-se quem pensa que a obra mais importante de Mercedes Sosa é apenas arte de sua garganta portentosa. Seu último trabalho, o álbum duplo Cantora e suas 35 faixas, quando grande parte dos artistas mal conseguem gravar as 12 faixas mínimas necessárias para a confecção de um CD, demonstram o colosso de sua expressão artística, sua capacidade de reunir em torno de si compositores de diferentes gêneros musicais e, principalmente, sua generosidade cultural.

Em sua trajetória praticamente não há altos e baixos, talvez mérito de não ter necessidade alguma de comprovar-se “nova”, “inédita”. Sua fidelidade ao seu país é tão plena que isso a levou a consolidar uma carreira universal, baseada nas músicas cantaroladas en los barrios, en la pampa y en el mar, como diz a letra de “Los Hermanos” de Atahualpa Yupanqui, uma das tantas imortalizadas em sua voz. Outros procurem uma obra fugaz, sem temperamento, a breve luz trazida por uma celebridade ocasional. Sinto muito, mas a obra de “La Negra” pertence a outro estatuto, que seja o estatuto da própria história da América Latina. Como cantou-me quando criança, deixe que lhe cante um pouco agora. Duerme, negrita.

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http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=1651

para Isabel

vinheta

Depois do primeiro dia em que o Lobo Mau ameaçou entrar aqui em casa, fui introduzido provisoriamente na mitologia da minha filha de cinco anos. Todas as noites, depois que ela adormece, eu tenho feito incursões na floresta em busca desse famigerado devorador de menininhas encapuzadas e porquinhos desavisados, além de bradar da nossa janela que a nossa casa é área livre de lobos maus e demais monstros de 242 olhos e 343 bocas, pelas suas últimas contas.

Engana-se quem imagina que eu tema enfrentar esse e outros tipos de perigos pelos meus filhos, afinal estou mais que inebriado por esse heroísmo que me emprestaram. O problema é que minha presença mitológica tem data marcada para ser revelada em sua dimensão mesquinha e humana. E isso em nome da cultura e do esforço civilizatório que vem sendo efetuado na escola, na socialização e também pelos meios de comunicação, que muito em breve irão me deixar tão minúsculo como uma formiga e irão colocar a prova minha capacidade de resistir por mim mesmo, pois minha estatura heróica estará desfeita então definitivamente. Daqui há algum tempo minha filha saberá que, a isso tudo, Freud e depois seus seguidores demonstraram (certamente não por demonstração) fazer parte de um complexo de implicações ético-sexuais tomado por base, coincidentemente ou não, numa outra mitologia – essa muito mais capaz que a minha. Isso, entretanto, faz parte de uma outra história.

São bem conhecidas as teorias nas quais o pensamento fantástico e a elaboração do medo e outros sensações infantis exercem um papel constituinte na personalidade infantil e a importância de sublimá-las desde cedo, através da composição e narrativa de situações vividas por personagens mágicos e mitológicos, parece mesmo incontestável. Ao menos há indícios de que esse tipo de narrativa vem acompanhando o ser humano desde épocas bem distantes (*). De certo modo, tenho a comprovação viva disso ao constatar que cada vez menos venho sendo chamado a defender o lar do Lobo Mau, o que vivencio como algo inevitável.

Muitos teóricos do desenvolvimento humano defendem que esse modo mágico de pensar é característico de um processo típico de evolução infantil e que, seja pelo próprio amadurecimento, seja pela progressiva instrumentação do saber decorrente da assimilação dos bens culturais, a coerência cultural infantil obtida através de uma percepção do mundo realizada através do aprendizado, do convívio social e também de sua própria evolução moral tende a fazê-lo rapidamente apenas memória. Seria um modo de pensar transitório e que a educação formal teria a função de aperfeiçoá-lo, qualificá-lo, sofisticá-lo… Coisa de criança, dito com mais simplicidade. Poucos pensadores postularam a infância como um estágio humano em si mesmo, não um vir a ser, mas um estar sendo. O polonês Janus Korczak foi um deles e, não por acaso, sua obra constituiu a base da Declaração dos Direitos da Criança (além de sua obra, Korczak fez do respeito à criança a sua própria vida) (**).

O que fica evidente, para quem acompanha o desenvolvimento de ao menos uma criança, é que essa noção de evolução é uma construção psicossocial que inicia na cisão entre natureza e cultura e que, a pretexto de civilizar os novos cidadãos, a visão particular da criança é logo na vida descontinuada e desvalorizada sistematicamente pela família, pelos grupos, pela escola, pela sociedade, enfim. Essa ruptura implica no descrédito da fantasia, na substituição da narrativa pela representação e, como pretendo insistir, na expulsão da criança do reino da natureza e sua relocação no habitat social. Interessante que essa é uma opção que não é dada à criança, mas que lhe é imposta. Simplesmente é o percurso “natural” que, naturalmente, também tem uma construção cultural que não é tão natural assim (***).

Trata-se de uma ruptura tão violenta que, ao longo da vida, costumamos nos referir à infância como um lugar e tempo perdidos, onde repousam as boas lembranças e a inocência. Mesmo assim, qual o pai ou educador que não vibra ao constatar que um filho ou aluno conquista novos estágios de seu desenvolvimento e abandona de vez a infância, suas quimeras, parlendas, garatujas e lobos-maus? Entretanto o espaço social da infância, como o temos hoje, não pode ser denominado exatamente como o “melhor dos mundos”, havendo uma série de violências a considerar que implicam não apenas no fim da inocência e dos estágios primários de organização do pensamento, mas também em sua degradação enquanto modo de vida em si mesmo. Um espaço no qual os bens de consumo determinam o valor dos bens culturais e onde a fantasia e a mitologia própria da infância são compelidas a abrir espaço para o pensamento lógico e a razão práticas, como se fornecessem uma interpretação definitivamente correta do ser e do estar no mundo e em seus lugares, para crianças ou adultos.

Não tenho intenção alguma em procurar preservar um estoicismo infantil ou “congelar” o desenvolvimento de meus filhos mas, se é para destinar uma cultura às crianças de um modo geral, é muito bom que seja algo que valha à pena de verdade. Como é provável que tenhamos de entregar-lhes, como produto de nossa obra, um mundo inconcluso e que muitas vezes também temos dificuldade de compreender e transformar em efetivo, por isso penso que já seria muito se pudéssemos legar-lhes não um conhecimento estéril e uma ciência que justifica um mundo que é bom para tão poucos (e tão ruim para a própria natureza), mas uma evolução de verdade, dentro de um conceito honesto que respeite inclusive as crianças pelo que elas são, não uma etapa, mas como sujeitos efetivos de direitos. Assim, poderemos ter alguma dignidade ao desfazer, cedo ou tarde, seu mundo de fantasias, não apenas deixando vazios que serão ocupados por compensações artificiais que mais tarde o mundo lhe trará sem pudor e, infelizmente, de forma cada vez mais precoce e menos sutil.

Enquanto posso, vou aproveitar a missão de trazer de volta à praia as sereias, que foram expulsas pelo lixo que homens malvados jogaram ao mar (e como jogaram lixo ao mar nos últimos tempos…). Se um dia minha filha não encontrar mais as sereias que hoje a encantam, não terá sido porque eu as tenha expulsado, até porque não tenho certeza de como elas devam deixar de “existir” no mundo. Com certeza elas acabarão por um dia decidir ficar nas profundezas dos oceanos mas, secretamente, torço para que minha filha jamais esqueça que um dia elas já estiveram “presentes” e que lutamos juntos para que não fossem enxotadas pelo nosso lixo civilizatório. Minha filha tem toda a razão em dizer que a natureza é sua filha. Eu penso que ela é a própria natureza. Pelo menos é o que de mais semelhante à natureza eu tenho ainda perto de mim.

_____________________

Ver Bettelheim, Bruno. A Psicanálise dos Contos de Fadas. Paz e Terra, 2007. (*)
Ver Korczak, Janus. Como amar uma criança. Paz e Terra, 1997. (**)
Ver Aries, Philippe. História social da criança e da família. Ed. LTC, 1981. (***)

Até sentir na pele

barra_3a minha situação você não sabe
nem vê quanta distância eu atravesso
até chegar aos seus pés
(e limpar o chão que você pisa)

em meu silêncio
eu narro os meus desastres
de modo que nunca lhe importune
(o que você não quer mudar jamais)

nossa mútua atmosfera
e também essa cidade em que vivemos
e os trajetos que fazemos
(e que permanecem inalterados sempre)

alguém nos explicou como viver assim
indivisíveis inseparáveis intransponíveis
(e aceitamos, porque nos convenceram de que é isso o que nos resta)

até sentir na pele, você não sabe o que é
(você quer mesmo saber quem eu sou?)

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http://www.observatoriodaeducacao.org.br/index.php?option=com_content&view=article&id=748:inclusao-desafia-a-educacao-especial&catid=57:artigos&Itemid=37
http://www.acaoeducativa.org.br/portal/index.php?option=com_content&task=view&id=1893&Itemid=2
http://www.codic.pr.gov.br/modules/noticias/makepdf.php?storyid=2021

cubo-magico

A perspectiva da regulamentação do Decreto 6.571, de 17 de setembro de 2008, que orienta a distribuição dos recursos do FUNDEB e organiza o Atendimento Educacional Especializado (AEE) nas escolas regulares, expõe mais uma vez fraturas que não são recentes e que estão no cerne do presente e do futuro da educação especial no Brasil. Isso acontece porque a proposta que o Conselho Nacional de Educação (CNE) levou à homologação do Ministro da Educação refuta a manutenção das escolas especiais como espaços exclusivos de atendimento educacional às pessoas com deficiência e sedimenta ainda mais a proposição de que a escola regular normal seja a escola de todos.

Essa é a vontade do Ministério da Educação, que vem implementando sistematicamente programas no sentido da confirmação da Política de Educação Especial na perspectiva inclusiva, e representa um acordo afirmativo com o avanço legal sobre o tema, que teve seu ponto máximo em julho de 2008, quando o Congresso Nacional, por unanimidade nas duas casas legislativas, ratificou com status de emenda constitucional a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que é o primeiro grande tratado de direitos humanos do milênio no âmbito das Nações Unidas.

Antes disso, entretanto, muitas iniciativas no sentido de bloquear as intenções de levar adiante a educação especial na perspectiva inclusiva aconteceram e, agora, mais uma vez, realiza-se um movimento nessa direção, visando à alteração da regulamentação antes de sua homologação final e mantendo as escolas especiais como espaço exclusivo de atendimento às pessoas com deficiência, desatendendo a Constituição Federal e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que recomendam a matrícula preferencialmente na rede regular, e a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, que dispõe que “As pessoas com deficiência não sejam excluídas do sistema educacional geral sob alegação de deficiência e que as crianças com deficiência não sejam excluídas do ensino primário gratuito e compulsório ou do ensino secundário, sob alegação de deficiência; (…)”.

No ano de 2007, o governo tentou avançar nesse sentido e, em menos de um mês, a intensa pressão do movimento em prol da manutenção das escolas especiais enquanto espaços exclusivos acabou impondo a regulamentação da questão através do Decreto 6.278/2007, modificando o entendimento prévio de que a oferta de educação especial teria um caráter complementar, e não substitutivo. Na época, a Campanha Nacional pelo Direito à Educação (1) manifestou-se favoravelmente à perspectiva inclusiva proposta pela Secretaria de Educação Especial do MEC, mas o movimento oposto, liderado principalmente pelas APAEs, fez valer sua pressão e obteve que suas escolas continuassem sendo consideradas regulares e aptas a receber integralmente os recursos do FUNDEB. Atualmente, é possível assistir a uma reedição dessa disputa que coloca em cheque o futuro de um universo de alunos matriculados nas escolas regulares que triplicou em relação a 2001, quando a escola especial tinha cerca de 80% dos alunos.

Segundo os dados do Censo Escolar da Educação Básica de 2008 (2), o percentual de alunos com deficiência matriculados no ensino regular atingiu o patamar de 54%, enquanto 46% permanecem nas escolas especiais. O objeto de disputa, entretanto, revela outras situações, como uma forte reação à adesão ao modelo complementar de educação preconizado pela implementação do AEE, no qual as instituições filantrópicas sem fins lucrativos continuariam a prestar serviços especializados em parceria com a esfera pública. Também as instituições privadas seriam levadas a ampliar a matrícula dos alunos com necessidades educacionais especiais e o grande número de situações em que a recusa de matrícula ainda é uma realidade deverão ser redimensionados, principalmente em razão da crescente adesão jurídico-normativa aos princípios da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência.

Paralelo a essa disputa e sua repercussão política (um dos espaços de incidência do movimento desfavorável à homologação do Parecer e instituição do AEE enquanto princípio orientador da Política de Educação Especial na perspectiva inclusiva é a Comissão de Educação e Cultura da Câmara dos Deputados, apesar da prerrogativa de aconselhamento ao Ministério da Educação pertencer a CNE, proponente da Resolução), o avanço da educação na perspectiva inclusiva é cada vez maior e tem dado visibilidade a inúmeras experiências onde a parceria das entidades filantrópicas com o poder público tem funcionado no sentido complementar e ampliando o universo de formação oferecido às pessoas com deficiência e sua inclusão social. Da mesma forma, é no sentido da educação inclusiva que a sociedade e os espaços públicos de discussão da educação têm projetado esse debate (na Conferência Nacional de Educação Básica de 2008 (3) reafirmou-se o caráter complementar e transversal da educação especial).

Também os casos de pessoas com deficiência intelectual, autismo, múltiplas deficiências e outras que avançaram sobre barreiras sociais atitudinais seculares, como a segregação e a discriminação públicas, fornecem indícios de que, mais que uma política de governo, a educação pode sustentar e promover o desenvolvimento humano onde é desacreditado, socializando os saberes e práticas pedagógicas que irão levar a educação a configurar-se como um patrimônio comum, onde as distinções farão sentido apenas no tocante à sua valorização enquanto fenômeno visível da multiplicidade humana. Que os governos, educadores, famílias, pessoas e a sociedade de um modo geral percebam que a educação é, além de uma questão de destinação de recursos e investimentos, uma questão de olhar e do pertencer social dos sujeitos.

(1) http://www.campanhaeducacao.org.br/b127_Decreto_Fundeb.htm
(2) http://www.inep.gov.br/censo/escolar/DOU_final_2008.htm
(3) http://www.seduc.pa.gov.br/portal/index.php?action=LinkTarefaNoticia.dl&idlink=375

Dragão

Dragão

sou o dragão

tenho um par de garras
e agora vou jogar cinza nas flores
vou me anunciar de forma impressionante
intermitente
intransigente
estridente
sou estafante

esse meu corpo é uma prisão
eu cubro o céu
eu crio o ocaso
eu abomino o chão

na minha frente não há nada nem ninguém
procure em vão em mim um coração
resistir? é impossível
irresistível? eu sou
eu faço o vento, me vou

Assim como no que se refere à convivência com as pessoas com deficiência, o enfrentamento e a oportunidade de diálogo social entre todas as diferenças que são peculiares aos seres humanos não devem mais sofrer nenhum tipo de retrocesso.

Também publicado em:

http://envolverde.ig.com.br/materia.php?cod=61368&edt=57
http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=39976
http://www.pautasocial.com.br/artigo.asp?idArtigo=1324
http://www.viapolitica.com.br/comunidade_view.php?id_comunidade=118
http://jornalon.com/?p=3178
http://www.maosdadas.net/?pg=show&registro=503&util=1
http://agenciainclusive.wordpress.com/2009/07/22/educacao-especial-na-berlinda/
http://www.planetaeducacao.com.br/novo/artigo.asp?artigo=1569
http://www.tribunadecianorte.com.br/index.php/art/1894-educacao-especial-na-berlinda
http://rapadura.saci.org.br/index.php?modulo=akemi&parametro=26104
http://www.agenciaamazonia.com.br/index.php?option=com_content&view=article&id=394:educacao-especial-na-berlinda&catid=58:opiniao&Itemid=300
http://www.educacionista.org.br/jornal/index.php?option=com_content&task=view&id=3675&Itemid=43&fontstyle=f-smaller
http://www.exkola.com.br/scripts/noticia.php?id=20321204
http://www.usinadeletras.com.br/exibelotexto.php?cod=53930&cat=Artigos
http://www.rts.org.br/artigos/artigos_-_2009/educacao-especial-na-berlinda

precipicio


A educação brasileira tem sido colocada com frequência na berlinda. Seja quando são divulgados dados sobre a evasão escolar (o relatório Situação da Infância e da Adolescência 2009, da UNICEF, aponta que cerca de 48% dos alunos do ensino fundamental não chegam ao ensino médio), seja quando as manchetes dos principais jornais do país são tomados por notícias de violência dentre os muros da escola ou, ainda, quando as políticas públicas voltadas ao tema são tensionadas entre atores sociais com interesses e demandas diversas. O fato é que a educação deve visar prioritariamente os direitos do universo dos educandos e, atualmente, quando o Ministério da Educação se encontra prestes a homologar a Resolução nº 13 do Conselho Nacional da Educação, que trata do Atendimento Educacional Especializado na Política de Educação Especial na perspectiva inclusiva, nenhuma hipótese de retrocesso deveria ser considerada, caso os compromissos firmados pelo Brasil em relação à comunidade internacional e, principalmente, em relação a sua própria sociedade pretendam ser mantidos.

Ao ratificar com status de emenda constitucional a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, em julho do ano passado, o Congresso Nacional deu um passo definitivo na consolidação de um marco legal nacional baseado na idéia principal da Convenção, que é a inclusão social das pessoas com deficiência e a efetivação de seu acesso à plena cidadania. Isto significa que a necessidade de romper com a cisão histórica entre “comum” e “especial” vai muito além de uma designação das classes escolares. É um rompimento histórico sem o qual os direitos humanos permanecerão sendo divididos entre uns e outros. Como não bastassem as diferenças impostas por uma sociedade baseada no acesso aos bens de consumo, o Estado não pode omitir-se no oferecimento de acesso aos bens culturais sociais e nem na garantia dos direitos fundamentais constitucionais a todos os cidadãos, bem como na fiscalização de sua oferta por agentes privados.

Que a educação seja colocada na berlinda é algo que tristemente a sociedade brasileira vem se acostumando ao longo dos últimos anos. E não trata-se de vitimizar exclusivamente a educação pública e demonizá-la: são os espaços públicos como um todo que sofrem os efeitos de uma sociedade que vem perdendo a dimensão do interesse público e coletivo em detrimento do interesse particular e individual. A reprodução dos fenômenos socias de discriminação, como recente pesquisa realizada pela FIPE/USP procurou demonstrar com a pesquisa “Preconceito e Discriminação na Escola”, tem encontrado na comunidade escolar um terreno fértil. Assim como no que se refere à convivência com as pessoas com deficiência, o enfrentamento e a oportunidade de diálogo social entre todas as diferenças que são peculiares aos seres humanos não devem mais sofrer nenhum tipo de retrocesso. E nem nenhuma pessoa merece ser despojada do acesso à cultura comum, a cultura que é partilhada entre quem somos, como somos. Nós todos. A não ser que não nos importemos mais de sermos colocados, enquanto sociedade, nessa berlinda que estamos nos acostumando a meramente criticar.

A partir de agora estou emprestando opiniões. Sim, estou quase as oferecendo como num mercado público. As minhas idéias são como tomates numa feira e há outros que tem as suas oferecidas como relíquias de antiquário, como objetos indispensáveis – tais como peças íntimas ou coisas mais secretas – e, ainda, como imagens santificadas, no estilo santinho de paróquia, prontas para o culto. Assim como os cientistas que optaram enclausurar o saber ou os políticos que juntam tomates, antiguidades, peças íntimas, santinhos ou o que quer que seja para convencer os outros de que são portadores indefectíveis da legitimidade representativa, ofereço os meus tomates que, desde já, estão à disposição de quem os queira – com a reserva de que eu mesmo os possa arremessar contra alvos de minha livre escolha, quando eu tiver vontade.

tomatoes

Logo serei rotulado de iconoclasta, irresponsável, intrometido, tenho certeza disso. Sim, anarquista também, ótimo e previsível! Mas qual o problema nisso? Além do mais, em termos de opiniões, não há uma classe de distinção senão a arbitrada por aqueles que tem interesse em sufocar todas as demais. Não quero sufocar ninguém e, por algo talvez mais que sorte, não me sinto também sufocado. Estou respirando por enquanto com medo apenas da gripe suína. Além do mais, os anos de chumbo acabaram, não é verdade? As instituições públicas e privadas, civis ou comerciais, me acompanham nesse raciocínio: estão a todo o momento registrando estar a serviço da democracia e do exclusivo interesse público. Ora, eu também. Por essa linha de pensamento, estamos vivendo a verdadeira paz perpétua, como queria Kant. Apenas precisamos, por precaução, ter em mãos o 0800 certo.

Um dos problemas de oferecer idéias é de que, ao serem consumidas (no caso dos meus tomates, garanto o uso de sementes livres de transgênicos e cultivos à distância de pesticidas), elas assumem um novo aspecto, formato e até mesmo teor. O leitor, esse objeto de admiração e alvo de toda argumentação, é um devorador incansável de palavras e signos. Muito provavelmente ele já terá, inclusive, experimentado o sabor desta idéia e, antes de que chegue ao fim da quinta linha (afinal já se acostumou a “entender” tudo em três linhas no Twitter), provavelmente estará admirando a imagem de um desastre natural, de um corpo nu moldado serialmente ou de um anúncio publicitário que pode estar saltitando na tela do computador, do smartphone e, muito em breve, da própria TV, que dizem será interativa, sabe-se lá em que acepção de “interação”. A tecnologia vem causando revoluções inúteis impressionantes e deixando um legado importante que se há de conhecer muito em breve. É a horizontalização da atitude em contraposição à verticalização da liderança. É como falava determinada personagem que vi esses dias num filme que não guardei nem o nome: “você está cheio de nadas”. É isso aí. Eu também estou cheio de nadas. Quem não está? Esse é um dos tomates que andaram me atirando recentemente e eu agora pretendo remixá-lo para depois, quem sabe?, passar a oferecê-lo como se fosse o primeiro tomate brotado no planeta. Como não tenho como garantir minha boa pontaria ou interesse na minha oferta, vou baixar o volume do canal dos discursos vigentes e me ocupar em descascar os meus tomates.

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Tomates utilizados nesse mix:

“Idéias não são metais que se fundam.”
Gaspar Silveira Martins

“Triste não é mudar de idéias, triste é não ter idéias para mudar.”
Aparício Torelly, o Barão de Itararé

“Não há nada mais conservador do que a utopia,
pois ela nunca redimensiona sua perspectiva.”
Jean Baudrillard

“O que você precisa pra sair daí?”
Marcelo D2

Attack-of-the-Killer-Tomatoes-Poster-C10126049

Cartaz do clássico trash "O ataque dos tomates assassinos".

Eólicas, 1

Meu pai conhece o vento
e o vento a ele.
Um dia saberei distinguir
quem diz primeiro bom dia?

vento

Está vendo agora?

Beloved imagination, what I most like in you is your unsparing quality.
Andre Breton

Eu mudei. Mudaram-me. Estou mudando.
Fiquei. Não fui. Agora mesmo eu parti.
Estou ainda procurando o que já encontrei.
Logo irei me encontrar com quem não sou.
Debandarei de minhas crenças antigas
como um lagarto que troca de pele
para continuar incógnito na areia.

Numa floresta de bambus ou na savana.
Dentro de um elevador paralisado.
Buscando água numa fonte seca
ou afogado num maremoto.
O mundo vive. Vive-me. Substitui-me.

Deixei lembranças dentro de um livro
que as crianças esqueceram de folhear.

Comprei sapatos que nunca couberam nos meus pés.

Mudaram-me sem fazer esforço,
contando-me mentiras, forjando verdades.

Vivo em vários lugares que não habito.

A sorte tem mãos que são garras.

Fui jogado ao destino que me deram e fugi
através de uma paisagem fechada
na qual a minha esperança foi espremida
por árvores e sombras de árvores,
por prédios imensos e o reflexo das luzes,
por casinhas amontoadas umas nas outras como viveiros
e meus pés afundados em formigueiros.

Há um coceira dentro dos meus pensamentos
tentando sair de um sono pegajoso.

Vejo o mundo numa proporção menor e nele não há mapas
ou estradas a percorrer.

Estão sempre contando os dias.
Estão sempre cantando coisas como canções infantis
e melodias esquecidas que adormecem entre os lábios.

É hora de encontrar seus olhos
e desperdiçar um pouco do infinito que ainda resta.
Não me espere. Estou indo.
Mas não irei com essas palavras
nem com essas roupas. Vou como nasci e irei nascer de novo.
É para isso que existimos. Para ter a ousadia de renascer.

Faço a rapina do tempo buscando o espaço do vôo
aguçando os sentidos em vão.

Não me dêem um lugar nesse mundo.

Deixem-lhe passar e a mim escolham uma porta por onde ir.

As imagens tortas das nuvens rabiscam minha imaginação.

O novelo de linha rolou ao toque do gato.
O osso quebrou-se sob as patas do cão.
A relva brotou pelo sorriso da lua cheia.

Um grito estridente no deserto que não se faz ouvir
é tão imenso quanto o espaço sideral que ninguém vê.
Sem resgate.
Sem retorno.
Sem recompensa.

Nunca mais li o recado que deixaram sobre a mesa
e que o vento levou anunciando a tempestade.

O silêncio quebrado pelo amarfanhado de folhas secas
e um helicóptero que se aproxima devagar.
E depois a água pingando do telhado até o sol aparecer mais uma vez
precedido pelo canto de pássaros.

Sei onde estou mas não mostraram-me para onde vou.
O futuro sequestra meu tempo e não pede resgate.
Está olhando agora para todos os lugares esperando um novo desejo,
uma nova intenção, um novo motivo.
Os antigos foram descartados como unhas aparadas na borda de uma janela.

Eu mudei. Mudaram-me. Deixaram-me intacto e transformado.
Os que passam pela vida não entedem que a vida não é um lugar.
São as sensações. Os temores. Os horrores. Os amores. O feito e o abandonado.

Minha idéia é ir em busca do desconhecido
e apalpá-lo como a um velho brinquedo.
Ser levado e levar.
Ser mantido e manter.
Ser tecido e tecer.

O vento que não é matéria conhece todos os lugares e nunca ninguém o viu.
Deixe que fique e que vá.
Ele já foi e ainda está.
Você não viu?
Não está vendo?

Tarari-tororó

em memória de Wanda Conceição Loguercio
19.04.1907 – 06.07.2009

Minha avó cantava tangos bem velhinhos dedilhando cordas do violão.
Tarari-tororó, tarari-tororó.
Naquelas cordas e em outras linhas
ensinou muita gente a viver.
Tarari-tororó, tarari-tororó.

Até ontem alcançava sua voz com minhas mãos
e agora viverá para sempre como as nuvens que voltam a ser água
depois de correr sem pressa e sem nenhum cansaço.
Tarari-tororó, tarari-tororó.

Como a água, indispensável para a vida de todos que lhe continuam.
Nós, que insistíamos em guardar memórias, temos agora a chance de usá-las.

Tarari-tororó.

wanda_e_joao

Meus avós maternos, Wanda e João.

Vapor barato, um mero serviçal do narcotráfico,
foi encontrado na ruína de uma escola em construção.

Caetano Veloso – Fora da Ordem

Há muito tempo que a principal narrativa da sociedade brasileira vem sendo a escrita do seu próprio descalabro, da sua própria desgraça. Acima de tudo, é preciso muita coragem e muito pouca vergonha em assumir isso assim tão às claras. Coragem porque dá sinais de que parte da sociedade está disposta a, mais do que elaborar um crítica dos problemas que a exclusão social impõe, empenhar-se num enfrentamento real da situação – e pouca vergonha porque isso significa deixar claro muito cedo para os novos cidadãos que seus direitos fundamentais, constitucionais, civis, de proteção e etc não fazem muito sentido, porque metade deles não irá completar sequer a metade do ensino médio e suas perspectivas de vida são tão incertas quanto o futuro das crises econômicas ou as medidas para contorná-las.

ruina

Mas a sociedade brasileira não chegou ao estado em que chegou por acaso e também não se pode dizer que por falta de aviso. Talvez o problema seja simplesmente que o aviso tenha sido endereçado às pessoas erradas. Pessoas que não possuíam maior interesse na sociedade a não ser em viver o quanto mais possível longe dela, imunes às desgraças dos quais seus direitos, por sua vez, as podem proteger. Através desse exemplo, a classe média, principalmente, migrou seus interesses e sonhos em função do crescente poder de consumo resultado da estabilidade econômica, oferecido como símbolo de riqueza, pela facilidade e “felicidade” de possuir e mostrar algum status social. O raciocínio parece simples, como o de crianças que competem pela atenção de um adulto, mas é no Brasil que foram criadas noções como a de que quem gosta de pobreza é intelectual ou a de que a melhor saída para o país seria o aeroporto do Galeão. Nessa mesma linha de raciocínio, esse seria o país que “não tem jeito”, e conversa encerrada. Nesse caso, onde foi parar o “jeitinho” brasileiro? Pode haver um jeitinho para o que não tem mais jeito? Esse tipo de pensamento poderia traduzir o sentimento da própria sociedade, em alguma medida? Haveriam reflexos concretos desse modo de pensar ramificando-se na estrutura social e política do país? Há culpados a apontar nisso? Existe aqui algo mais do que aquela pouca vergonha ou daquela coragem iniciais?

Dentre as hipóteses a considerar, uma é a de que as pessoas criam os seus próprios atalhos sociais. Assim, em busca de identificação com o modo de vida dominante, crianças e adolescentes perguntam-se desde muito cedo sobre o sentido de aprender, de ter uma educação, do que significa viver com dignidade enquanto tudo o que querem, a essa altura da vida, custa “duzentas pratas”. Na medida em que a sociedade lhes oferece o consumo como forma de expressão e conduta, a educação é um subproduto que se decompõe sob os olhos de todos e que cada vez lhes interessa menos. Essa é a hipótese do impeachment social. E esse impedimento é construído por uma sociedade que se recusa a perceber-se na sua própria dimensão, escapando à responsabilidade de enfrentar de frente os problemas, preferindo tratar das feridas sociais – como o vício em drogas, o desemprego e a falência ética – como problemas sem solução e que não lhes pertencem.

A criação de uma parasociedade, de uma sociedade dos excluídos, está funcionando como o tiro de misericórdia do apartheid social: a oficialização da segregação. Assim, depositados entre os carentes, é possível aos que não carecem de nada oferecer migalhas a estes que, de bicos abertos pela extrema necessidade, agradecem pela piedade sedimentando a instititucionalização da sua condição. Essa construção, mesmo que pareça natural, também tem uma história oculta. É a história do povo negro e das crianças. Das pessoas com deficiência e dos subempregados. Juntos, são a Geni da sociedade, vítimas e algozes ao mesmo tempo, pintando as ruas das metrópoles com sua própria escrita, escapando desse descalabro, dessa narrativa que lhes é destinada através da sua coragem e da sua “pouca vergonha”, evidenciando em definitivo que as oportunidades só são desperdiçadas por aqueles que delas não necessitam.

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Remix3: Com Patricia Almeida e Cassuça Benevides

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